Caridade, o Amor de Deus pelos homens

Por Júnior Monteiro

Para entendermos o que é a caridade devemos começar pelo seu significado. Caridade significa querido ou amado, sendo um dos conceitos mais utilizados no ambiente cristão. Fazendo referência a uma relação com o outro. Esse conceito segundo o Novo Testamento, expressa o amor de Deus pelos homens e o amor dos homens para com Deus e para com o próximo, incluindo também o amor aos inimigos, como nos diz Jesus no Evangelho (Cf. Mt 5,44).

O Catecismo da Igreja Católica define a caridade assim: “A caridade é a virtude teologal pela qual amamos a Deus sobre todas as coisas, por si mesmo, e a nosso próximo como a nós mesmos, por amor a Deus.”(Cf. Cat. n. 1822). Ter amor ao próximo não amando a Deus é mera ação filantrópica e não é caridade. Muitos acreditam que somente dar esmolas ou alimento a um necessitado já é caridade, mas caridade é algo maior. É amar Deus, e por este amor a Deus, amar o próximo e deste amor brota a caridade com aquele que necessita e precisa. Assim agiu Jesus no Evangelho em diversas passagens, situações e com diversas pessoas, ele é nosso maior exemplo de amor caridade. Afirma São João em sua carta que Deus é amor (Cf. I Jo 4, 8), e de fato Ele o é, e nosso agir caritativo deve se basear neste amor senão será vazio e sem sentido.

Poderíamos assim perguntar: qual é a finalidade da caridade? Assim podemos utilizar de uma frase de Santo Agostinho: “A finalidade de todas as nossas obras é o amor”. O fim da caridade é o amor, Amor de Deus por nós e nosso por Deus e pelo próximo. A caridade nos aproxima de Deus, nos faz seguidores e nos identifica com Jesus Cristo e nasce do mandamento novo, “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei.”(Cf. Jo 13,34). Este mesmo mandamento novo é o diferencial da caridade cristã, é um novo elemento. Deus nos amou, portanto, nós devemos amar a todos sem distinção de pessoas. Assim se diferencia a finalidade da filantropia e da caridade cristã, que visa sempre à realidade do amor de Deus. Entendendo o sentido do amor de Deus por nós, compreendendo esse amor, somos capazes de nos amar e amar o próximo. Então o fim da caridade é amar a Deus e amar o próximo. Deus nos amou primeiro diz São João (Cf. I Jo 4,19), e nos devemos amá-lo e amar as pessoas que estão neste mundo, e de forma especial aquelas que estão passando por alguma privação ou necessidade, seja espiritual ou material.

O homem anseia pela verdade, pela felicidade, pela justiça, pelo bem, pela paz e por muitos outros bens. Mas o que impele o homem a caridade? Diz São Paulo que a caridade de Cristo nos impulsiona (Cf. II Cor 5, 14), e isso é sem dúvida uma verdade. Deus nos impele a caridade, a prática da caridade, caridade como o amor que Ele tem por nós, pelos homens e pelos mais necessitados. Esse Deus Amor, esse Deus Caridade, toca o coração do homem a realizar a caridade, a praticar a mesma para perfeição cristã. A experiência desse amor de Deus gratuito por nós que chega ao ponto de morrer na cruz é o maior exemplo de caridade. Não que por causa desse amor, exista em mim a necessidade de retribuir a Ele esse mesmo amor, mas deve nascer em mim o mesmo amor gratuito a Deus e ao próximo. O Catecismo da Igreja diz assim: “A caridade assegura e purifica nossa capacidade humana de amar, elevando-a à perfeição sobrenatural do amor divino” (Cf. Cat. nº 1827). O amor de Deus nos impulsiona a caridade, no amor pelo outro. Já as obras filantrópicas que nascem em determinados momentos de uma pessoa ou organização, na maioria das vezes desejam somente status social e outros interesses financeiros e nada mais. A verdadeira caridade vem de Deus, é impelida por Deus, pelo seu amor gratuito.

De uma forma geral a caridade num primeiro momento está dentro do coração do homem, em sua mente, em seu pensar, refletir ou ver a realidade. Claro partindo do ponto que o indivíduo tenha feito à experiência desse amor de Deus. Então a caridade está no interior do homem, e passa a ser exterior quando o mesmo prática a ação caritativa com o necessitado. Até o próprio Jesus teve compaixão da multidão e curou os doentes num primeiro momento (Cf. Mt 14, 13-21), e logo depois fez um milagre, o da multiplicação dos pães e peixes, havendo até sobras. Jesus sendo Deus agiu com caridade para com aqueles que estão ali escutando suas palavras e moveu os discípulos a prática da caridade com a multiplicação dos pães e dos peixes. E seguindo sua ordem: “Dai-lhe vós mesmos de comer”(Cf. Mt 14,16), o milagre aconteceu. Vendo essa passagem vemos que Deus move o coração do ser humano à prática da caridade, essa atitude de amor para com o nosso próximo. Sendo assim, a caridade está dentro de nós em um primeiro momento, e vem num segundo momento se exteriorizar com ato propriamente dito.

A caridade não acontece somente na perspectiva religiosa, ela acontece em outras organizações da sociedade que professam uma fé ou não professam nenhuma fé. Observamos em nosso tempo, diversas empresas, empresários e pessoas utilizando a prática da caridade sem essa dimensão religiosa, como em campanhas do agasalho, doação de cestas básicas e até proporcionando qualificação profissional a essas pessoas que precisam. É um tipo de caridade que não tem um cunho religioso, ou não leva em conta esta dimensão. Apesar de valiosa, acaba por lhe faltar o primordial da caridade, sendo apenas a manifestação da benevolência humana para com o pobre ou aquele que sofre. Perdendo seu sentido original e suas raízes que são Deus e a Bíblia.  A caridade cristã é muito mais rica que as atitudes filantrópicas e humanitárias realizadas pelos homens, pois a mesma é um dom de Deus. Essa prática produz no homem com dimensão religiosa, um certo desapego material, um sentimento de amor para com o outro e para com Deus. O ideal é que a caridade tenha por bases a fé, que nos faz seguidores do exemplo do mestre Jesus, que praticou a caridade pela fé que ensinou e pela compaixão que teve pelo ser humano em suas atitudes e ações aqui na terra. A prática caritativa quando não tem essa dimensão da religiosidade perde o seu sentido e sua finalidade, o amor a Deus e o amor aos irmãos.

A teologia é como ciência um auxílio para a prática da caridade em nosso cotidiano. A reflexão vinda da teologia proporciona aprofundamento do tema da caridade o qual estamos tratando, além de nos ajudar a esclarecer conceitos para a prática do agir caritativo. Com a teologia nos ajudando nesse tema podemos ter uma visão geral daquilo que é a caridade que nasce do coração de Deus pelo homem, e do coração do homem para o coração do necessitado, esse amor que impele o homem ao bem e a ajudar os que mais precisam. A teologia e caridade estão em uma continua unidade e complemento, e a teologia traz sua contribuição reflexiva e teórica sobre o tema da caridade, mas também nos apresenta as práticas pastorais que nos levam a realizar a caridade de uma forma correta e concreta. A teologia nasce da caridade de um Deus que se revela e se torna fim para onde aponta a mesma. A teologia nos mostra que o termo caridade não é somente utilizado para dar um bem material ao outro necessitado, o conceito pode ser utilizado em sua plenitude para o amor de Deus ao homem, para o amor do homem ao necessitado, para as ações como desapego material (doar algo ao outro), desapego imaterial (esquecer de nós mesmos, doando tempo ao outro), nas necessidades do outro, na escuta do outro, nas demonstrações de amor e no cuidado com o próximo. Portanto, o termo caridade parte e permeia todo o ensinamento da Bíblia, trazendo diversos significados para o termo e práticas ligadas ao mesmo conceito.

A teologia desta forma nos dá fundamentos para entendermos o sentido da caridade, um Deus que se revela como Amor na Bíblia, que se doa ao homem na cruz com seu Filho e que nos oferece o Espírito Santo, dom do Amor, para nos guiar e santificar. Compreender esse amor caridade de Deus é uma função primordial da Teologia, que nos leva ao mais profundo entendimento desse Amor de Deus, um amor incondicional por nós, um amor caridade por nós. Observando esse amor de Deus, sendo nós imagem e semelhança Dele, devemos praticar as obras de caridade sejam elas, espirituais ou materiais, para com aqueles que mais necessitam.

REFERÊNCIAS

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