Liturgia para o domingo de Ramos e da Paixão do Senhor

O Rei-Messias

1ª Leitura: Is 50,4-7
Sl 21
2ª Leitura: Fl 2,6-11
Evangelhos: Mc 11, 1-10 (procissão) Mc 14,1-15,47 (paixão)

* 1 Jesus e seus discípulos se aproximaram de Jerusalém, diante de Betfagé e de Betânia, perto do monte das Oliveiras. Então Jesus enviou dois discípulos, 2 dizendo: «Vão até o povoado que está na frente de vocês, e logo que vocês entrarem aí, vão encontrar amarrado um jumentinho que nunca foi montado; desamarrem o animal e tragam aqui. 3 Se alguém lhes falar: ‘Por que estão fazendo isso?’, digam: ‘O Senhor precisa dele, mas logo o devolverá.» 4 Então eles foram e encontraram um jumentinho amarrado, do lado de fora, na rua, junto de uma porta, e o desamarraram. 5 Algumas pessoas que aí estavam disseram: «O que vocês estão fazendo, desamarrando o jumentinho?» 6 Os discípulos responderam como Jesus havia dito, e então permitiram que fizessem isso. 7 Então levaram o jumentinho a Jesus, colocaram os próprios mantos sobre ele, e Jesus montou. 8 E muitas pessoas estenderam seus mantos pelo caminho; outros puseram ramos que haviam apanhado nos campos. 9 Os que iam na frente e os que seguiam gritavam: «Hosana! Bendito aquele que vem em nome do Senhor! 10 Bendito seja o Reino que vem, o reino de nosso pai Davi! Hosana no mais alto do céu!»

O Messias vai ser morto

1 Faltavam dois dias para a Páscoa e para a festa dos Ázimos. Os sumos sacerdotes e os mestres da Lei procuravam um meio de prender Jesus à traição, para matá-lo.

2 Eles diziam: ‘Não durante a festa, para que não haja um tumulto no meio do povo.’ Derramou perfume em meu corpo, preparando-o para a sepultura.

3 Jesus estava em Betânia, na casa de Simão, o leproso. Quando estava à mesa, veio uma mulher com um vaso de alabastro cheio de perfume de nardo puro, muito caro. Ela quebrou o vaso e derramou o perfume na cabeça de Jesus.

4 Alguns que estavam ali ficaram indignados e comentavam: ‘Por que este desperdício de perfume?

5Ele poderia ser vendido por mais de trezentas moedas de prata, que seriam dadas aos pobres.’ E criticavam fortemente a mulher.

6 Mas Jesus lhes disse: ‘Deixai-a em paz! Por que aborrecê-la? Ela praticou uma boa ação para comigo.

7 Pobres sempre tereis convosco e quando quiserdes podeis fazer-lhes o bem. Quanto a mim não me tereis para sempre.

8 Ela fez o que podia: derramou perfume em meu corpo, preparando-o para a sepultura.

9 Em verdade vos digo, em qualquer parte que o Evangelho for pregado, em todo o mundo, será contado o que ela fez, como lembrança do seu gesto.’ Prometeram a Judas Iscariotes dar-lhe dinheiro.

10 Judas Iscariotes, um dos doze, foi ter com os sumos sacerdotes para entregar-lhes Jesus.

11 Eles ficaram muito contentes quando ouviram isso, e prometeram dar-lhe dinheiro. Então, Judas começou a procurar uma boa oportunidade para entregar Jesus. Onde está a sala em que vou comer a Páscoa com os meus discípulos?

12 No primeiro dia dos ázimos, quando se imolava o cordeiro pascal, os discípulos disseram a Jesus: ‘Onde queres que façamos os preparativos para comeres a Páscoa?’

13 Jesus enviou então dois dos seus discípulos e lhes disse: ‘Ide à cidade. Um homem carregando um jarro de água virá ao vosso encontro. Segui-o

14 e dizei ao dono da casa em que ele entrar: ‘O Mestre manda dizer: onde está a sala em que vou comer a Páscoa com os meus discípulos?’

15 Então ele vos mostrará, no andar de cima, uma grande sala, arrumada com almofadas. Ali fareis os preparativos para nós!’

16 Os discípulos saíram e foram à cidade. Encontraram tudo como Jesus havia dito, e prepararam a Páscoa. Um de vós, que come comigo, vai me trair.’

17 Ao cair da tarde, Jesus foi com os doze.

18 Enquanto estavam à mesa comendo, Jesus disse: ‘Em verdade vos digo, um de vós, que come comigo, vai me trair.’

19 Os discípulos começaram a ficar tristes e perguntaram a Jesus, um após outro: ‘Acaso serei eu?’

20 Jesus lhes disse: ‘É um dos doze, que se serve comigo do mesmo prato.

21 O Filho do Homem segue seu caminho, conforme está escrito sobre ele. Ai, porém, daquele que trair o Filho do Homem! Melhor seria que nunca tivesse nascido!’ Isto é o meu corpo. Isto é o meu sangue, o sangue da aliança.

22 Enquanto comiam, Jesus tomou o pão e, tendo pronunciado a bênção, partiu-o e entregou-lhes, dizendo: ‘Tomai, isto é o meu corpo.’

23 Em seguida, tomou o cálice, deu graças, entregou-lhes e todos beberam dele.

24 Jesus lhes disse: ‘Isto é o meu sangue, o sangue da aliança, que é derramado em favor de muitos.

25 Em verdade vos digo, não beberei mais do fruto da videira, até o dia em que beberei o vinho novo no Reino de Deus.’

Antes que o galo cante duas vezes, três vezes tu me negarás.

26 Depois de terem cantado o hino, foram para o monte das Oliveiras.

27 Então Jesus disse aos discípulos: ‘Todos vós ficareis desorientados, pois está escrito: ‘Ferirei o pastor e as ovelhas se dispersarão.’

28 Mas, depois de ressuscitar, eu vos precederei na Galiléia.’

29 Pedro, porém, lhe disse: ‘Mesmo que todos fiquem desorientados, eu não ficarei.’

30 Respondeu-lhe Jesus: ‘Em verdade te digo, ainda hoje, esta noite, antes que o galo cante duas vezes, três vezes tu me negarás.’

31 Mas Pedro repetiu com veemência: ‘Ainda que tenha de morrer contigo, eu não te negarei.’ E todos diziam o mesmo. Começou a sentir pavor e angústia.

32 Chegados a um lugar chamado Getsêmani, disse Jesus aos discípulos: ‘Sentai-vos aqui, enquanto eu vou rezar!’

33 Levou consigo Pedro, Tiago e João, e começou a sentir pavor e angústia.

34 Então Jesus lhes disse: ‘Minha alma está triste até a morte. Ficai aqui e vigiai.’

35 Jesus foi um pouco mais adiante e, prostrando-se por terra, rezava que, se fosse possível, aquela hora se afastasse dele.

36 Dizia: ‘Abbá! Pai! Tudo te é possível: Afasta de mim este cálice! Contudo, nóo seja feito o que eu quero, mas sim o que tu queres!’

37 Voltando, encontrou os discípulos dormindo. Então disse a Pedro: ‘Simão, tu estás dormindo? Não pudeste vigiar nem uma hora?

38 Vigiai e orai, para não cairdes em tentaçóo! Pois o espírito está pronto, mas a carne é fraca.’

39 Jesus afastou-se de novo e rezou, repetindo as mesmas palavras.

40 Voltou outra vez e os encontrou dormindo, porque seus olhos estavam pesados de sono e eles não sabiam o que responder.

41 Ao voltar pela terceira vez, Jesus lhes disse: ‘Agora podeis dormir e descansar. Basta! Chegou a hora! Eis que o Filho do Homem é entregue nas mãos dos pecadores.

42 Levantai-vos! Vamos! Aquele que vai me trair já está chegando.’ Prendei-o e levai-o com segurança!’

43 E logo, enquanto Jesus ainda falava, chegou Judas, um dos doze, com uma multidão armada de espadas e paus. Vinham da parte dos sumos sacerdotes, dos mestres da Lei e dos anciãos do povo.

44 O traidor tinha combinado com eles um sinal, dizendo: ‘É aquele a quem eu beijar. Prendei-o e levai-o com segurança!’

45 Judas logo se aproximou de Jesus, dizendo: ‘Mestre!’, e o beijou.

46 Então lançaram as mãos sobre ele e o prenderam.

47 Mas um dos presentes puxou a espada e feriu o empregado do sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha.

48 Jesus tomou a palavra e disse: ‘Vós saístes com espadas e paus para me prender, como se eu fosse um assaltante.

49 Todos os dias eu estava convosco, no Templo, ensinando, e não me prendestes. Mas isto acontece para que se cumpram as Escrituras.’

50 Então todos o abandonaram e fugiram.

51 Um jovem, vestido apenas com um lençol, estava seguindo a Jesus, e eles o prenderam.

52 Mas o jovem largou o lençol e fugiu nu. Tu és o Messias, o Filho de Deus Bendito?

53 Então levaram Jesus ao Sumo Sacerdote, e todos os sumos sacerdotes, os anciãos e os mestres da Lei se reuniram.

54 Pedro seguiu Jesus de longe, até o interior do pátio do Sumo Sacerdote. Sentado com os guardas, aquecia-se junto ao fogo.

55 Ora, os sumos sacerdotes e todo o Sinédrio procuravam um testemunho contra Jesus, para condená-lo à morte, mas não encontravam.

56 Muitos testemunhavam falsamente contra ele, mas seus testemunhos não concordavam.

57 Alguns se levantaram e testemunharam falsamente contra ele, dizendo:

58 ‘Nós o ouvimos dizer: ‘Vou destruir este templo feito pelas mãos dos homens, e em três dias construirei um outro, que não será feito por mãos humanas!`’

59 Mas nem assim o testemunho deles concordava.

60 Então, o Sumo Sacerdote levantou-se no meio deles e interrogou a Jesus: ‘Nada tens a responder ao que estes testemunham contra ti?’

61 Jesus continuou calado, e nada respondeu. O Sumo Sacerdote interrogou-o de novo: ‘Tu és o Messias, o Filho de Deus Bendito?’

62 Jesus respondeu: ‘Eu sou. E vereis o Filho do Homem sentado à direita do Todo-Poderoso, vindo com as nuvens do céu.’

63 O Sumo Sacerdote rasgou suas vestes e disse: ‘Que necessidade temos ainda de testemunhas?

64 Vós ouvistes a blasfêmia! O que vos parece?’ Então todos o julgaram réu de morte.

65 Alguns começaram a cuspir em Jesus. Cobrindo-lhe o rosto, o esbofeteavam e diziam: ‘Profetiza!’ Os guardas também davam-lhe bofetadas. Nem conheço esse homem de quem estais falando.

66 Pedro estava em baixo, no pátio. Veio uma criada do Sumo Sacerdote,

67 e, quando viu Pedro que se aquecia, olhou bem para ele e disse: ‘Tu também estavas com Jesus, o Nazareno!’

68 Mas Pedro negou, dizendo: ‘Não sei e nem compreendo o que estás dizendo!’ E foi para fora, para a entrada do pátio. E o galo cantou.

69 A criada viu Pedro, e de novo começou a dizer aos que estavam perto: ‘Este é um deles.’

70 Mas Pedro negou outra vez. Pouco depois, os que estavam junto diziam novamente a Pedro: ‘É claro que tu és um deles, pois és da Galiléia.’

71 Aí Pedro começou a maldizer e a jurar, dizendo: ‘Nem conheço esse homem de quem estais falando.’

72 E nesse instante um galo cantou pela segunda vez. Lembrou-se Pedro da palavra que Jesus lhe havia dito: ‘Antes que um galo cante duas vezes, três vezes tu me negarás.’ Caindo em si, ele começou a chorar. Vós quereis que eu solte o rei dos judeus?

15,1 Logo pela manhã, os sumos sacerdotes, com os anciãos, os mestres da Lei e todo o Sinédrio, reuniram-se e tomaram uma decisão. Levaram Jesus amarrado e o entregaram a Pilatos.

2 E Pilatos o interrogou: ‘Tu és o rei dos judeus?’ Jesus respondeu: ‘Tu o dizes.’

3 E os sumos sacerdotes faziam muitas acusações contra Jesus.

4 Pilatos o interrogou novamente: ‘Nada tens a responder? Vê de quanta coisa te acusam!’

5 Mas Jesus não respondeu mais nada, de modo que Pilatos ficou admirado.

6 Por ocasião da Páscoa, Pilatos soltava o prisioneiro que eles pedissem.

7 Havia então um preso, chamado Barrabás, entre os bandidos, que, numa revolta, tinha cometido um assassinato.

8 multidão subiu a Pilatos e começou a pedir que ele fizesse como era costume.

9 Pilatos perguntou: ‘Vós quereis que eu solte o rei dos judeus?’

10 Ele bem sabia que os sumos sacerdotes haviam entregado Jesus por inveja.

11 Porém, os sumos sacerdotes instigaram a multidão para que Pilatos lhes soltasse Barrabás.

12 Pilatos perguntou de novo: ‘Que quereis então que eu faça com o rei dos Judeus?’

13 Mas eles tornaram a gritar: ‘Crucifica-o!’

14 Pilatos perguntou: ‘Mas, que mal ele fez?’ Eles, porém, gritaram com mais força: ‘Crucifica-o!’

15 Pilatos, querendo satisfazer a multidão, soltou Barrabás, mandou flagelar Jesus e o entregou para ser crucificado. Teceram uma coroa de espinhos e a puseram em sua cabeça.

16 Então os soldados o levaram para dentro do palácio, isto é, o pretório, e convocaram toda a tropa.

17 Vestiram Jesus com um manto vermelho, teceram uma coroa de espinhos e a puseram em sua cabeça.

18 E começaram a saudá-lo: ‘Salve, rei dos judeus!’

19 Batiam-lhe na cabeça com uma vara. Cuspiam nele e, dobrando os joelhos, prostravam-se diante dele.

20 Depois de zombarem de Jesus, tiraram-lhe o manto vermelho, vestiram-no de novo com suas próprias roupas e o levaram para fora, a fim de crucificá-lo. Levaram Jesus para o lugar chamado Gólgota.

21 Os soldados obrigaram um certo Simão de Cirene, pai de Alexandre e de Rufo, que voltava do campo, a carregar a cruz.

22 Levaram Jesus para o lugar chamado Gólgota, que quer dizer ‘Calvário’. Ele foi contado entre os malfeitores.

23 Deram-lhe vinho misturado com mirra, mas ele nóo o tomou.

24 Então o crucificaram e repartiram as suas roupas, tirando a sorte, para ver que parte caberia a cada um.

25 Eram nove horas da manhã quando o crucificaram.

26 E ali estava uma inscrição com o motivo de sua condenação: ‘O Rei dos Judeus’.

27 Com Jesus foram crucificados dois ladrões, um à direita e outro à esquerda.

28 Porque eu vos digo: É preciso que se cumpra em mim a Palavra da Escritura: ‘Ele foi contado entre os malfeitores.’A outros salvou, a si mesmo não pode salvar!

29 Os que por ali passavam o insultavam, balançando a cabeça e dizendo: ‘Ah! Tu que destróis o Templo e o reconstróis em três dias,

30 salva-te a ti mesmo, descendo da cruz!’

31 Do mesmo modo, os sumos sacerdotes, com os mestres da Lei, zombavam entre si, dizendo: ‘A outros salvou, a si mesmo não pode salvar!

32 O Messias, o rei de Israel…que desça agora da cruz, para que vejamos e acreditemos!’ Os que foram crucificados com ele também o insultavam. Jesus deu um forte grito e expirou.

33 Quando chegou o meio-dia, houve escuridão sobre toda a terra, até as três horas da tarde.

34 Pelas três da tarde, Jesus gritou com voz forte: ‘Eli, Eli, lamá sabactâni?’, que quer dizer: ‘Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?’

35 Alguns dos que estavam ali perto, ouvindo-o, disseram: ‘Vejam, ele está chamando Elias!’

36 Alguém correu e embebeu uma esponja em vinagre, colocou-a na ponta de uma vara e lhe deu de beber, dizendo: ‘Deixai! Vamos ver se Elias vem tirá-lo da cruz.’

37 Então Jesus deu um forte grito e expirou. Aqui todos se ajoelham e faz-se uma pausa.

38 Neste momento a cortina do santuário rasgou-se de alto a baixo, em duas partes.

39 Quando o oficial do exército, que estava bem em frente dele, viu como Jesus havia expirado, disse: ‘Na verdade, este homem era Filho de Deus!’

40 Estavam ali também algumas mulheres, que olhavam de longe; entre elas, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago Menor e de Joset, e Salomé.

41 Elas haviam acompanhado e servido a Jesus quando ele estava na Galiléia. Também muitas outras que tinham ido com Jesus a Jerusalém, estavam ali. José rolou uma pedra à entrada do sepulcro.

42 Era o dia da preparação, isto é, a véspera do sábado, e já caíra a tarde.

43 Então, José de Arimatéia, membro respeitável do Conselho, que também esperava o Reino de Deus, cheio de coragem, veio a Pilatos e pediu o corpo de Jesus.

44 Pilatos ficou admirado, quando soube que Jesus estava morto. Chamou o oficial do exército e perguntou se Jesus tinha morrido há muito tempo.

45 Informado pelo oficial, Pilatos entregou o corpo a José.

46 José comprou um lençol de linho, desceu o corpo da cruz e o envolveu no lençol. Depois colocou-o num túmulo, escavado na rocha, e rolou uma pedra à entrada do sepulcro.

47 Maria Madalena, e Maria, mãe de José, observavam onde Jesus foi colocado.


* 12-21: A celebração da Páscoa marcava a noite em que o povo de Deus foi libertado da escravidão do Egito. Jesus vai ser morto como o novo cordeiro pascal: sua vida e morte são o início de novo modo de vida, no qual não haverá mais escravidão do dinheiro e do poder.

* 22-25: A ceia pascal de Jesus com os discípulos recorda a multiplicação dos pães. Ela substitui as cerimônias do Templo e torna-se o centro vital da comunidade formada pelos que seguem a Jesus. O gesto e as palavras de Jesus não são apenas afirmação de sua presença sacramental no pão e no vinho. Manifestam também o sentido profundo de sua vida e morte, isto é: Jesus viveu e morreu como dom gratuito, como entrega de si mesmo aos outros, opondo-se a uma sociedade em que as pessoas vivem para si mesmas e para seus próprios interesses. Na ausência de Jesus, os discípulos são convidados a fazer o mesmo («tomem»): partilhar o pão com os pobres e viver para os outros.

Bíblia Pastoral

O Messias e Filho de Deus

A primeira parte de Mc é marcada pelo caráter velado da obra messiânica de Jesus. Este traz o Reino de Deus presente, mas não de modo manifesto. Apenas o deixa entrever em sinais de sua “autoridade” (1,21 etc.; cf. 2,10 etc.), melhor reconhecidos pelos demônios do que pelos próprios discípulos. Aponta a presença escondida do Reino, narrando parábolas (Mc 4). Suscita admiração por seus grandes milagres, que mostram seu domínio da natureza (4,41 etc.). Prefigura o banquete escatológico (5,34-44). Mas o mistério de sua missão e personalidade fica escondido, até para os discípulos (8,14-21). A abertura dos olhos do cego de Betsaida marca um início de mudança (8,22-26). Os discípulos reconhecem Jesus como Messias (8,27-29), porém, entendem-no em categorias humanas e não divinas (8,31-33). Mediante as predições da Paixão e o ensinamento sobre o seguimento e o serviço, Jesus prepara seus discípulos para a reta compreensão de seu messianismo: não à maneira de um militaresco “filho de Davi”, mas à maneira do rei-messias humilde e esmagado de Zc 9 (cf. Zc 12,10) (Mc 8,27-10,45; cf. 11.1-10). A cura do cego de Jericó é o sinal de uma visão crescente (10,46-52), mas Jerusalém fica ainda na ambigüidade: aclama como rei davídico aquele que entra sentado num burrinho (como o rei de Zc 9) e que, no fim de seu ensinamento em Jerusalém declarará absurda a mera identificação do Messias com o filho de Davi (12,37).

Jesus é mais do que o filho de Davi. Ele é o filho querido de Deus (1,11, 9,7, 15,39), o “Servo” que, em obediência ao incansável amor de Deus para com os homens, dá sua vida, realizando em plenitude o que o Servo de Deus em Is 52-53 prefigurou. Mas como Filho de Deus, ele é também o Filho do Homem, portador dos plenos poderes escatológicos. Sua condenação sob falsas alegações religiosas e políticas significa o primeiro passo para sua vinda gloriosa e o juízo sobre o mundo (Mc 14,62), que ele havia anunciado imediatamente antes de sua paixão (Mc 13). É a dispersão escatológica (Mc 14,27; cf. 13,7), prelúdio da reunião do rebanho pelo pastor escatológico, depois da ressurreição (14,28; cf. 16,7). É o início do tempo final, prelúdio da vinda definitiva (que os primeiros cristãos esperavam para breve).

Para nós, hoje, esta cristologia de Mc significa uma crítica a qualquer messianismo imediatista, que recorre à imposição e não à paciência do testemunho até o sangue (= martírio).

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes

Messias, Filho do Homem, Filho de Deus

A primeira parte do evangelho de Marcos apresenta de maneira velada a obra messiânica de Jesus. Falou-se até de um “segredo messiânico”. Jesus traz o Reino de Deus presente, mas não de modo manifesto; apenas o deixa entrever
em sinais de sua autoridade (1, 21; 2,10 etc). Inclusive, os demônios que ele expulsa o reconhecem antes dos próprios discípulos! As parábolas (Mc 4) falam da presença escondida do Reino. Os gestos de Jesus apontam para o Reino (a partilha do pão), mas os discípulos não o entendem (8, 14-21). A abertura dos olhos do cego de Betsaida anuncia uma mudança (8, 22-26). Os discípulos reconhecem Jesus como Messias, mas em categorias humanas, sem entender seu caminho de Servo Sofredor (8, 27-30.31-33). Nos caps. 8 a 10, mediante os anúncios da Paixão e os ensinamentos sobre o seguimento e o serviço, surge uma espécie de compreensão, simbolizada pela abertura dos olhos do cego de Jericó (10, 46-52). Mas Jerusalém continua na ambigüidade. Jesus entra na cidade sentado num burrinho, como o Messias humilde descrito no profeta Zacarias, mas o povo o aclama; como Filho de Davi. Ora, Davi era guerreiro. Será que o povo entendeu que tipo de Messias Jesus realiza? Jesus é mais que um filho de Davi.É o filho querido de Deus (1, 11; 9,7; 15,39) que, em obediência ao incansável amor do Pai, dá sua vida e realiza plenamente a figura do “Servo” descrita em Isaías 53.

A narração da Paixão fornece uma chave para abrir esse segredo. O sumo sacerdote pergunta a Jesus se ele é o Messias, o Filho de Deus. Jesus responde “Sou, sim, e vereis o Filho do Homem sentado à direita do Todo-Poderoso e vindo com as nuvens do céu” (Mc 14, 61). O mundo pergunta se ele é o Filho de Deus e ele responde que é o Filho do Homem… Este Filho do Homem é uma figura que vem da profecia de Daniel (7, 13-14). É o enviado celestial que esmaga as quatro feras que disputam o domínio sobre o mundo. Simboliza o Reino de Deus. O Reino de Deus, que vence os reinos “ferozes” deste mundo, tem rosto humano. Para nós, tem o rosto de Jesus.

Assim, na Paixão de Jesus, Filho do Homem e Filho de Deus significam a mesma coisa. Jesus é o Filho querido de Deus, que une sua vontade à do Pai, para, pelo dom da própria vida, vencer as feras que dominam este mundo e quebrar sua força definitivamente. Ao ser condenado pelo sumo sacerdote de seu povo, ele se proclama portador de uma autoridade: a do Filho do Homem. Quando ele morre na cruz, por causa da justiça e do amor, o representante do mundo universal, o militar romano, exclama: “Este era de fato Filho de Deus”. Ambos os títulos significam o respaldo que Deus dá a Jesus, e que se verificará na gloriosa ressurreição dentre os mortos. Jesus é vencedor pela morte por amor em obediência filial (Filho de Deus), mas também pelo julgamento que derrota o poder deste mundo (Filho do Homem).

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes