Liturgia para a Sexta-feira Santa

Jesus se entrega livremente

1ª Leitura: Is 52, 13-53, 12
2ª Leitura: Hb 4,14-16; 5,7-9
Evangelho: Jo 18,1-19,42

-* 1 Tendo dito isso, Jesus saiu com seus discípulos, e foi para o outro lado do riacho do Cedron, onde havia um jardim. Ele entrou no jardim com os discípulos. 2 Jesus já tinha se reunido aí muitas vezes com seus discípulos. Por isso, Judas, que estava traindo Jesus, também conhecia o lugar. 3 Judas arrumou uma tropa e alguns guardas dos chefes dos sacerdotes e fariseus e chegou ao jardim com lanternas, tochas e armas. 4 Então Jesus, sabendo tudo o que lhe ia acontecer, saiu e perguntou a eles: «Quem é que vocês estão procurando?» 5 Eles responderam: «Jesus de Nazaré.» Jesus disse: «Sou eu.» Judas, que estava traindo Jesus, também estava com eles. 6 Quando Jesus disse: «Sou eu», eles recuaram e caíram no chão. 7 Então Jesus perguntou de novo: «Quem é que vocês estão procurando?» Eles responderam: «Jesus de Nazaré.» 8 Jesus falou: «Já lhes disse que sou eu. Se vocês estão me procurando, deixem os outros ir embora.» 9 Era para se cumprir a Escritura que diz: «Não perdi nenhum daqueles que me deste.»10 Simão Pedro tinha uma espada. Desembainhou a espada e feriu o empregado do sumo sacerdote, decepando-lhe a orelha direita. O nome do empregado era Malco. 11 Mas Jesus disse a Pedro: «Guarde a espada na bainha. Por acaso não vou beber o cálice que o Pai me deu?» 12 Então a tropa, o comandante e os guardas das autoridades dos judeus prenderam e amarraram Jesus. 13 A primeira coisa que fizeram foi levar Jesus até Anás, que era sogro de Caifás, sumo sacerdote naquele ano. 14 Caifás é aquele que tinha dado um conselho aos judeus: «É preciso que um homem morra pelo povo.»

Pedro nega ser discípulo -* 15 Simão Pedro e o outro discípulo seguiam Jesus. Esse discípulo era conhecido do sumo sacerdote, e entrou com Jesus no pátio do chefe do sacerdote. 16 Mas Pedro ficou fora, perto da porta. Então o outro discípulo, que era conhecido do sumo sacerdote, saiu, conversou com a porteira e levou Pedro para dentro. 17 A empregada, que tomava conta da porta, perguntou a Pedro: «Você não é tembém um dos discípulos desse homem?» Pedro disse: «Eu não.» 18 Os empregados e os guardas estavam fazendo uma fogueira para se esquentar, porque fazia frio. Pedro ficou se esquentando junto com eles.

Testemunho de Jesus diante do poder religioso – 19 Então o sumo sacerdote interrogou Jesus a respeito dos seus discípulos e do seu ensinamento. 20 E Jesus respondeu: «Eu falei às claras para o mundo. Eu sempre ensinei nas sinagogas e no Templo, onde todos os judeus se reúnem. Não falei nada escondido. 21 Por que você me interroga? Pergunte aos que ouviram o que eu lhes falei. Eles sabem o que eu disse.» 22 Quando Jesus falou isso, um dos guardas que estavam aí deu uma bofetada em Jesus e disse: «É assim que respondes ao sumo sacerdote?» 23 Jesus respondeu: «Se falei mal, mostre o que há de mal. Mas se falei bem, por que você bate em mim?» 24 Então Anás mandou Jesus amarrado para o sumo sacerdote Caifás.

Pedro confirma sua negação – 25 Simão Pedro ainda estava lá fora se esquentando. Perguntaram a ele: «Você também não é um dos discípulos dele?» Pedro negou: «Eu não.» 26 Então um dos empregados do sumo sacerdote, parente daquele a quem Pedro tinha decepado a orelha, disse: «Por acaso eu não vi você no jardim com ele?» 27 Pedro negou de novo. E, na mesma hora, o galo cantou.

Jesus entregue ao poder romano -* 28 De Caifás levaram Jesus para o palácio do governador. Era de manhã. Mas eles não entraram no palácio, pois não queriam ficar impuros, para poderem comer a ceia pascal. 29 Então Pilatos saiu para fora e conversou com eles: «Que acusação vocês apresentam contra esse homem?» 30 Eles responderam: «Se ele não fosse malfeitor, não o teríamos trazido até aqui.» 31 Pilatos disse: «Encarreguem-se vocês mesmos de julgá-lo, conforme a lei de vocês.» Os judeus responderam: «Não temos permissão de condenar ninguém à morte.» 32 Era para se cumprir o que Jesus tinha dito, significando o tipo de morte com que ele deveria morrer.

A realeza de Jesus -* 33 Então Pilatos entrou de novo no palácio. Chamou Jesus e perguntou: «Tu és o rei dos judeus?» 34 Jesus respondeu: «Você diz isso por si mesmo, ou foram outros que lhe disseram isso a meu respeito?» 35 Pilatos falou: «Por acaso eu sou judeu? O teu povo e os chefes dos sacerdotes te entregaram a mim. O que fizeste?» 36 Jesus respondeu: «O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas lutariam para que eu não fosse entregue às autoridades dos judeus. Mas agora o meu reino não é daqui.» 37 Pilatos disse a Jesus: «Então tu és rei?» Jesus respondeu: «Você está dizendo que eu sou rei. Eu nasci e vim ao mundo para dar testemunho da verdade. Todo aquele que está com a verdade, ouve a minha voz.» 38 Pilatos disse: «O que é a verdade?»

A opção pela violência -* Ao dizer isso, Pilatos saiu ao encontro das autoridades dos judeus, e disse-lhes: «Eu não encontro nele nenhum motivo de condenação. 39 Contudo, existe um costume entre vocês: que eu lhes solte alguém na Páscoa. Vocês querem que eu lhes solte o rei dos judeus?» 40 Então eles começaram a gritar de novo: «Ele não. Solte Barrabás.» Barrabás era um bandido.

Capítulo 19
A realeza do mundo é caçoada
 -* 1 Então Pilatos pegou Jesus e o mandou flagelar. 2 Os soldados trançaram uma coroa de espinhos e a colocaram na cabeça de Jesus. Vestiram Jesus com um manto vermelho. 3 Aproximaram-se dele e diziam: «Salve, rei dos judeus!» E lhe davam bofetadas.

Jesus é o Homem, Filho de Deus -* 4 Pilatos saiu de novo e disse: «Vejam. Eu vou mandar trazer aqui fora o homem, para que vocês saibam que não encontro nenhuma culpa nele.» 5 Então Jesus foi para fora. Levava a coroa de espinhos e o manto vermelho. Pilatos disse-lhes: «Eis o homem!» 6 Vendo Jesus, os chefes dos sacerdotes e os guardas começaram a gritar: «Crucifique. Crucifique.» Pilatos disse-lhes: «Encarreguem-se vocês mesmos de crucificá-lo, pois eu não encontro nenhum crime nele.» 7 Os judeus responderam: «Nós temos uma lei, e segundo a lei ele deve morrer, porque se fez Filho de Deus.» 8 Quando ouviu essas palavras, Pilatos ficou com mais medo ainda.

Só Deus tem autoridade -* 9 Pilatos entrou outra vez no palácio e perguntou a Jesus: «De onde és tu?» Jesus ficou calado. 10 Então Pilatos perguntou: «Não me respondes? Não sabes que tenho autoridade para te soltar e autoridade para te crucificar?» 11 Jesus respondeu: «Você não teria nenhuma autoridade sobre mim, se ela não lhe fosse dada por Deus. Por isso, aquele que me entregou a você, tem pecado maior.» 12 Por causa disso, Pilatos se esforçava para soltar Jesus.

Jesus é o supremo juiz -* Mas os judeus gritavam: «Se você soltar esse homem, você não é amigo de César. Todo aquele que pretende ser rei, se coloca contra César.» 13 Ouvindo essas palavras, Pilatos levou Jesus para fora. Fez que Jesus se sentasse numa cadeira de juiz, no lugar chamado «Pavimento», que em hebraico se diz «Gábata.» 14 Era véspera da Páscoa, por volta do meio-dia. Pilatos disse aos judeus: «Aqui está o rei de vocês.» 15 Eles começaram a gritar: «Fora! Fora! Crucifique.» Pilatos perguntou: «Mas eu vou crucificar o rei de vocês?» Os chefes dos sacerdotes responderam: «Não temos outro rei além de César.» 16 Então, finalmente, Pilatos entregou Jesus a eles para que fosse crucificado.

O crucificado -* Eles levaram Jesus. 17 Jesus carregou a cruz nas costas e saiu para um lugar chamado «Lugar da Caveira», que em hebraico se diz «Gólgota.» 18 E aí crucificaram Jesus com outros dois homens, um de cada lado, e Jesus no meio.

Jesus é o Rei universal -* 19 Pilatos mandou também escrever um letreiro e colocou-o na cruz. Estava escrito: JESUS NAZARENO, O REI DOS JUDEUS. 20 Muitos judeus puderam ver o letreiro, porque o lugar em que Jesus foi crucificado ficava perto da cidade. O letreiro estava escrito em hebraico, latim e grego. 21 Então os chefes dos sacerdotes dos judeus disseram a Pilatos: «Não deixe escrito: ‘O rei dos judeus’, mas coloque: ‘Este homem disse: Eu sou rei dos judeus.’ « 22 Mas Pilatos respondeu: «O que escrevi, está escrito.»

A comunidade de Jesus é universal -* 23 Quando crucificaram Jesus, os soldados repartiram as roupas dele em quatro partes. Uma parte para cada soldado. Deixaram de lado a túnica. Era uma túnica sem costura, feita de uma peça única, de cima até em baixo. 24 Então eles combinaram: «Não vamos repartir a túnica. Vamos tirar a sorte, para ver com quem fica.» Isso era para se cumprir a Escritura que diz: «Repartiram minha roupa e sortearam minha túnica.» E foi assim que os soldados fizeram.

A relação entre Israel e a comunidade de Jesus -* 25 A mãe de Jesus, a irmã da mãe dele, Maria de Cléofas, e Maria Madalena estavam junto à cruz. 26 Jesus viu a mãe e, ao lado dela, o discípulo que ele amava. Então disse à mãe: «Mulher, eis aí o seu filho.» 27 Depois disse ao discípulo: «Eis aí a sua mãe.» E dessa hora em diante, o discípulo a recebeu em sua casa.

Jesus amou até o fim -* 28 Depois disso, sabendo que tudo estava realizado, para que se cumprisse a Escritura, Jesus disse: «Tenho sede.» 29 Havia aí uma jarra cheia de vinagre. Amarraram uma esponja ensopada de vinagre numa vara, e aproximaram a esponja da boca de Jesus. 30 Ele tomou o vinagre e disse: «Tudo está realizado.» E, inclinando a cabeça, entregou o espírito.

A morte de Jesus é o maior sinal de vida -* 31 Era dia de preparativos para a Páscoa. Os judeus queriam evitar que os corpos ficassem na cruz durante o sábado, porque esse sábado era muito solene para eles. Então pediram que Pilatos mandasse quebrar as pernas dos crucificados e os tirasse da cruz. 32 Os soldados foram e quebraram as pernas de um e depois do outro, que estavam crucificados com Jesus. 33 E se aproximaram de Jesus. Vendo que já estava morto, não lhe quebraram as pernas, 34 mas um soldado lhe atravessou o lado com uma lança, e imediatamente saiu sangue e água.
35 E aquele que viu, dá testemunho, e o seu testemunho é verdadeiro. E ele sabe que diz a verdade, para que também vocês acreditem.
36 Aconteceu isso para se cumprir a Escritura que diz: «Não quebraram nenhum osso dele.» 37 E outra passagem que diz: «Olharão para aquele que transpassaram.»

O sepultamento de Jesus -* 38 José de Arimatéia era discípulo de Jesus, mas às escondidas, porque ele tinha medo das autoridades dos judeus. Depois disso, ele foi pedir a Pilatos para retirar o corpo de Jesus. Pilatos deu a autorização. Então ele foi e retirou o corpo de Jesus. 39 Nicodemos também foi. Nicodemos era aquele que antes tinha ido de noite encontrar-se com Jesus. Levou mais de trinta quilos de uma mistura de mirra e resina perfumada. 40 Então eles pegaram o corpo de Jesus e o enrolaram com panos de linho junto com os perfumes, do jeito que os judeus costumam sepultar.

41 No lugar onde Jesus fora crucificado havia um jardim, onde estava um túmulo, em que ninguém ainda tinha sido sepultado. 42 Então, por causa do dia de preparativos para a Páscoa e porque o túmulo estava perto, lá colocaram Jesus.

Notas do Capítulo 18
* 18,1-14: O jardim recorda o paraíso do Gênesis, de onde o homem tinha sido expulso. Jesus entra no jardim para enfrentar e derrotar a serpente, símbolo do mal que oprime e mata os homens. Ninguém tem poder para prender Jesus ou defendê-lo. Ele é preso porque entrega livremente a própria vida, cumprindo até o fim a missão que o Pai lhe confiou.
* 15-27: O testemunho dado por Jesus está entre as negações de Pedro. Há um contraste de atitudes. Antes Pedro usara a violência e Jesus se entregara livremente. Agora Jesus corajosamente dá testemunho diante das autoridades, sem nada negar de sua atividade anterior; Pedro, ao contrário, nega covardemente sua condição de discípulo e seu passado de adesão a Jesus. Jesus terminou o tempo da sua atividade terrestre. Agora seu testemunho deve ser continuado pelos seus seguidores.
* 28-32: Os representantes do poder religioso e do poder político se encontram para resolver o caso Jesus de Nazaré. É a véspera da Páscoa, a festa da libertação, transformada agora em mero rito. As autoridades dos judeus já decidiram a morte de Jesus: querem apenas a aprovação de Pilatos.
* 33-38a: Jesus confirma que é rei. Sua realeza, porém, não é semelhante à dos poderosos deste mundo. Estes exploram e oprimem o povo, enganando-o com um sistema de idéias, para esconder sua ação. É o mundo da mentira. Jesus, ao contrário, é o Rei que dá a vida, trazendo aos homens o conhecimento do verdadeiro Deus e do verdadeiro homem. Seu reino é o reino da verdade, onde a exploração dá lugar à partilha, e a opressão dá lugar à fraternidade.
* 38b-40: O bandido Barrabás é símbolo da violência que busca o poder, que perpetua o modo de ser dos reinos deste mundo. As autoridades preferem Barrabás, porque a pessoa de Jesus põe em risco os reinos deste mundo.

Notas do Capítulo 19
* 19,1-3: Jesus é caricaturado como rei (coroa e manto vermelho). Caçoando de Jesus assim fantasiado, os soldados na verdade ridicularizam o ideal de realeza dos poderosos deste mundo.
* 4-8: Manifesta-se agora a verdadeira realeza, a do Homem que entrega sua própria vida pelos outros homens. Os opressores o rejeitam e pedem sua morte, acusando-o do crime que é justamente a verdade mais profunda do Homem: ser Filho de Deus. Como instrumento do poder, a lei torna-se inimiga do homem.
* 9-12a: Jesus não se aproveita do medo supersticioso de Pilatos para conseguir sua liberdade. Os chefes dos judeus vêem Jesus como perigoso para seus interesses e aliam-se ao opressor, exigindo a sentença de morte. O dilema de Pilatos é o dilema do homem dependente do sistema injusto de poder: ou arrisca a própria posição ou sacrifica o inocente. Deus, o único que tem autoridade absoluta, permite que Pilatos e os chefes judeus tomem a decisão e assumam a responsabilidade.
* 12b-16a: Ao meio-dia, os sacerdotes do templo começavam a matança dos cordeiros para a Páscoa, festa que celebrava o fim da escravidão no Egito. No mesmo instante, os chefes dos sacerdotes fazem sua profissão de ateísmo, declarando-se súditos do opressor romano. Sentado na cadeira de juiz, Jesus ratifica em silêncio a condenação que os chefes escolhem para si próprios.
* 16b-18: A cruz é o trono de onde Jesus exerce a sua realeza. Ele não está só, mas é o centro daqueles que o acompanham, dando a vida como ele.
* 19-22: O letreiro apresenta Jesus crucificado como a Escritura da nova aliança de Deus com a humanidade: Jesus é o Rei que entrega sua vida por todos. Doravante, a cruz será o símbolo do amor de Deus, que vai até o fim. A nova Escritura é compreensível a todos, porque a linguagem do amor é universal e permanece escrita para sempre.
* 23-24: A roupa de Jesus é a sua herança, espalhada pelos quatro cantos da terra. Deverá ser vestida por todos os que querem seguir a Jesus, tornando-se seus herdeiros na prática do serviço ao homem, dando até mesmo a própria vida. Apesar de espalhadas por todos os tempos e lugares, as comunidades cristãs participarão de um só e mesmo Espírito, o Espírito que guiou toda a atividade de Jesus.
* 25-27: A mãe de Jesus representa aqui o povo da antiga aliança que se conservou fiel às promessas e espera pelo salvador. E o discípulo amado representa o novo povo de Deus, formado por todos os que dão sua adesão a Jesus. Na relação mãe-filho, o evangelista mostra a unidade e continuação do povo de Deus, fiel à promessa e herdeiro da sua realização.
* 28-30: O projeto de Deus a respeito do homem se completa na morte de Jesus, sinal do seu dom de amor até o fim. O Espírito que Jesus entrega é o mesmo que o conduziu em toda a sua atividade. Ele realiza o reino universal e constitui o novo povo de Deus, que continuará a obra de Jesus.
* 31-37: Morto na cruz, Jesus é o grande sinal, o ápice de todos os sinais narrados pelo evangelista. O sangue simboliza a morte; a água simboliza o Espírito que dá a vida: com sua morte Jesus trouxe a vida. Captar e testemunhar este sinal é questão decisiva, pois só através dele a história do homem vai encontrar a possibilidade de chegar à sua plenitude, dando lugar à sociedade livre e fraterna. É acreditando na vida de Jesus que o cristão continua a obra libertadora por ele iniciada.
* 38-42: O drama da paixão termina da mesma forma que havia começado: Jesus está dentro do jardim do paraíso. Tendo vencido a serpente, Jesus abre de novo para o homem a possibilidade de se realizar plenamente na comunhão com Deus.
Temos aqui uma questão crucial para o cristão: ou ele acredita em Jesus vivo hoje e dá testemunho, ou vê Jesus como vítima derrotada e sepultada no passado. Então fica paralisado diante da violência dos poderosos, e não é capaz de dar o testemunho de Jesus.

Bíblia Sagrada – Edição Pastoral

A cruz gloriosa

Durante o Tríduo Sacro, a liturgia segue os passos do Senhor mais cerradamente ainda do que no tempo da Quaresma. O Tríduo Sacro é um grande drama, uma grande encenação do sofrimento do Senhor. Por isso, tendo representado a Instituição da Ceia na tarde da quinta-feira, a liturgia não voltará a celebrar a Eucaristia até a noite pascal  – assim como Jesus não voltou a celebrá-la até que a celebrasse no Reino de Deus (Mt 26,29 e par.). Assim, no dia em que o sacrifício de Cristo está mais central do que nunca, a liturgia não celebra o sacrifício da Missa, mas uma evocação de sua morte, que não deixa de estar em íntima união com a missa de Quinta-feira Santa, já que o pão consagrado ontem é consumido hoje.

A liturgia nos faz sentir, sobretudo, o significado do sofrimento de Cristo, e as duas leituras que preparam a leitura do evangelho são fundamentais para contemplarmos este mistério.

A 1ª  leitura apresenta o 4° canto do Servo de Deus (Is 52-53). Neste texto, a jovem Igreja encontrou o fio escondido que a existência de Jesus revelou e levou ao fim: a doação da vida do justo, pela salvação dos irmãos, mesmo dos que o rejeitaram. Como diz a 2ª  leitura (Hb 4-5), Jesus participou em tudo de nossa condição humana, menos no pecado. Sua existência não foi alheia à nossa como a de um anjo. Jesus teve de descobrir continuamente, como cada um de nós, o sentido de sua existência, embora a vivesse de modo divino, em contínua união com o Pai. Assim, formado na escola da piedade judaica, ele conheceu a tradição que considerava a salvação como fruto do sofrimento redentor. Mas esta não era a teologia dominante do judaísmo farisaico, que esperava a salvação a partir das instituições, da observância legalista, de algum messias político… Jesus, pelo contrario, reconheceu na sua experiência íntima com Deus, a quem chamamos de Pai, a experiência dos pobres de Deus, do profeta rejeitado e do justo sacrificado pelos seus irmãos, e assumiu-a, em obediência até o fim ao projeto do Pai. E isso que nos ensinam as duas primeiras leituras, com suas expressões humanas e existenciais, que sacodem o nosso cristianismo monofisista(*): “pedidos e súplicas… veemente clamor e lágrimas… embora fosse Filho, aprendeu a obediência pelo sofrimento” (Hb 5,7-8).

Esta cristologia da “quenose” (despojamento) (**)  e da verdadeira humanidade de Jesus é pressuposta para compreender a cristologia da glória no relato da Paixão de Jesus segundo João (evangelho). Jo mostra o sofrimento do Cristo fortemente à luz da fé pós-pascal. Mas nem por isso nega a dimensão trágica da experiência humana de Jesus; antes, a supõe e a coloca na luz de sua glória divina. Tal procedimento não teria sentido se a gente não estivesse profundamente convencido da realidade do abismo do sofrimento pelo qual ele passou. Pois é neste abismo que se realiza a revelação da glória de Deus, que é amor incomensurável. Assim, merecem especial atenção, nesta narração, a majestade de Jesus na hora de sua prisão; a ironia em redor do “rei dos judeus”, que Pilatos declara, formalmente, ser Jesus; o sentido do Reino de Jesus; e a cena de sua morte, fonte de Espírito e vida. O Cristo da Paixão segundo João é parecido com aquele Cristo vestido de traje sacerdotal ou real, coroado do diadema imperial, que os artistas do começo da Idade Média colocavam na cruz: é a visão teológica da Cruz Gloriosa, a mesma que domina a segunda parte da celebração da Sexta-feira Santa, a adoração da cruz, em que alterna a lamentação do Cristo rejeitado com a aclamação de sua glória (antífona Hágios ho Theós).

Entre as leituras e a veneração da Cruz gloriosa, pronunciam-se as grandes preces da Igreja, modelo das preces dos fiéis em nossas liturgias. Este rito também se inspira na idéia de que a cruz é a fonte da graça de Deus, da vida da Igreja: do lado aberto do Salvador nasce a Igreja.

A terceira parte da liturgia é o despojado rito de comunhão com o Senhor que nos amou até o fim. Este rito estabelece a unidade da presente celebração com a de ontem, consumindo-se hoje as Santas Espécies consagradas ontem (chamadas “pré-consagradas”). A bênção final tem um texto próprio, evocando a perspectiva da Ressurreição.

(*) Inclinado a substantificar a natureza divina de Cristo, desconsiderando sua encarnação em verdadeira existência humana.
(**) Cf. comentário da missa do dia de Natal.

Do livro “Liturgia Dominical”, de Johan Konings, SJ, Editora Vozes

E inclinando a cabeça, entregou o espírito!

Sexta-feira da Paixão

Quem vai nos levar até o fundo mistério da sexta-feira das dores é São Bernardo de Claraval.

“Nós o vimos, diz a Escritura, e não tinha beleza nem atrativo para olharmos. O mais belo dos filhos dos homens tornou-se objeto de horror, semelhante a um leproso; o último dos homens, verdadeiramente o homem das dores, ferido por Deus e humilhado, sem graça nem beleza. O último dos homens que é o primeiro! Humilhado e exaltado! Ó opróbrio dos homens e glória dos anjos! Ninguém mais elevado e ninguém mais rebaixado! Foi coberto de escarros, saturado de injúrias, condenado à morte mais vergonhosa e contado entre os malfeitores (Is 53, 12). Essa humildade infinita ficará sem mérito algum? Assim como a paciência de Cristo é única, sua humildade é admirável, ambas sem precedentes.

Uma e outra adquirem ainda maior esplendor se considerarmos sua causa: O imenso amor com que Deus nos amou (Ef 2,4). Para redimir o escravo, o Pai não poupou seu Filho, nem o Filho a si mesmo. Realmente que amor imenso, que excede a qualquer medida e modo, e supera qualquer outro amor! Nada ilustra mais sua paciência e sua humildade como o fato de ter-se entregue à morte e ter assumido o pecado de todos, orando ainda pelos culpados a fim de que não morresse. Essa palavra é digna de fé e de toda acolhida(1Tm 1,15, 4,9): tornou-se oblação porque ele mesmo quis. Não se deve apenas dizer que quis e se tornou oblação, mas porque ele quis, tornou-se oblação (Is 53,12: Vulg). Pois somente ele teve o poder de dispor de sua vida: ninguém a tirou, ele ofereceu-a espontaneamente.

Tendo tomado vinagre, Jesus disse: Está consumado (Jo 19,30). Todas as coisas se realizaram, não tenho mais nada a fazer. E inclinando a cabeça – obediente até à morte – entregou o espirito (Jo 19,30) Na verdade, que homem pode adormecer na morte, por sua espontânea vontade? Que grande fraqueza é morrer, mas morrer assim que força imensa! Com efeito, o que é fraqueza de Deus é mais forte do que os homens (1Cor 1,25). Somente poderia assim entregar-se à morte aquele que por seu próprio poder iria retornar à vida. Somente podia dar sua vida aquele que podia igualmente retomá-la, pois tem o poder sobre a vida sobre a morte

Lecionário Monástico III, p 556-557