COMO O POVO DE DEUS COMPREENDE O REINO ANUNCIADO POR CRISTO JESUS?

O conceito Reino de Deus se inclui na complexidade que envolve todo o mistério do Plano do Criador, por isso, há muitas gerações têm promovido grandes desafios entre exegetas e teólogos. Todavia, as reflexões apontam para um Reino benevolente e cheio de paz – com início no plano terreno, agora.

A expressão Reino de Deus era bastante utilizada no judaísmo, crendo que, Deus será O Rei verdadeiramente justo. Só Ele poderá realizar o ideal de um rei capaz de proteger os pobres e marginalizados de todo tipo. Por isso, quando Jesus anuncia a chegada do Reino, encontra muitos adeptos. O mesmo ocorreu com os apóstolos após Pentecostes (cf. At 2,1-4), pois confirmava uma expectativa inserida numa longa tradição, construída profeticamente através dos livros do Primeiro Testamento (cf. Lc 24,44; Jo 5,39; 1 Pd 1,10), e a simbolizar com várias figuras (cf. 1 Cor 10,11).

Frequentemente Jesus apresenta o Reino em sentido escatológico – final dos tempos –  Parusia (cf. Mc 9,1; Lc 13,28), mas também proclama a grande novidade de que o Reino irrompe e atua já, agora, hoje (cf. Mt 12,28 e paralelos; Lc 4,18-21; Mt 21,31; Lc 17,20-21), esta última citação é muito clara: O Reino já está no meio de vós.

REINO DE DEUS, OU REINO DOS CÉUS?

São variações linguistas [sinônimos], mas se referem a mesma ideia (cf. Mt 19,23-24). O termo Reino de Deus está contextualizado em toda a Bíblia, sendo tema principal do Segundo Testamento – centro de toda vida e de toda pregação de Jesus (cf. Mc 1,15; Mt 4,23; Lc 4,43; 8,1). O Evangelho de Lucas é o que mais apresenta o termo Reino de Deus. Reino dos céus é mencionado somente no Evangelho de Mateus.

Nos livros do Segundo Testamento a expressão Reino de Deus aparece 122 vezes, sendo 99 vezes nos Evangelhos Sinóticos, e destas, 90 pertencem às palavras de Jesus. No Evangelho de São João e nos restantes escritos do Novo Testamento, a expressão tem poucas referências.

MAS O QUE É O REINO, ONDE FICA?

A palavra é um substantivo, e têm vários sentidos indicativos: pessoas; lugares; sentimentos; vidas; coisas, etc. Refletindo com sabedoria sobre cada um destes indicativos, compreende-se que toda a criação faz parte do Reino (cf. Sl 102,19), e sendo assim, aqui, agora, já somos consagrados como seus integrantes, num caminhar de fé – amplo fundamento da esperança.

O Reino de Deus é totalmente interior e pessoal; é sinal do Amor e da Misericórdia do Pai. O Reino se inicia no coração de todos aqueles que se deixarem transformar por este Amor – é querê-lo em todas as circunstâncias e sem limitações.

EM QUE CONSISTE O REINO DE DEUS?

O Reino de Deus implica um mundo novo em que o mal e o sofrimento são vencidos, onde prevalecem a justiça, a paz e alegria no Espírito Santo (cf. Rm 14,17).

Tanto os milagres do Cristo Jesus, como suas palavras, são uma consequência do Reino. Buscar e reconhecer este projeto de vida e plenificá-lo no coração, sustenta a Graça Divina na vida do fiel, convertendo-o para nova maneira de agir – cheia de paz e de Amor – cristificado na vertical e na horizontal.

JESUS E O REINO DE DEUS

Orígenes caracterizou Jesus como a autobasileia, isto é, como o Reino de Deus em pessoa. “Este Reino manifesta-se na palavra, nas obras e na presença de Cristo” (LG n.5). “Cristo estabeleceu o Reino de Deus na terra, manifestou com obras e palavras ao Pai e a Si mesmo, e levou a cabo a Sua obra com a Sua morte, ressurreição, e gloriosa ascensão, e com o envio do Espírito Santo” (DV n.17).

Para bem compreendermos o verdadeiro significado da vinda de Jesus e sua benevolência em nossas vidas através de seus ensinamentos […], em diversos momentos sua missão de proclamar o Reino foi intensamente fervorosa, anunciando-o de várias formas: atitudes de misericórdia e de caridade plena ao próximo, curas; milagres; parábolas. Ações dignas – transformadas em convites para se entrar no Reino.

Possuem valor especial àquelas referências ao Reino de Deus que, com muita probabilidade, são do próprio Jesus. É o caso do Pai-Nosso (cf. Mt 6,9-15; Lc 11,2-4), e das Bem-Aventuranças (cf. Mt 5,1-12). Na oração do Pai-Nosso, Jesus ensina a orar pedindo a vinda do Reino. Os três primeiros pedidos feitos nessa oração tratam diretamente do Reinado de Deus.

O que importa acima de tudo é que Deus seja aceito de verdade, como Deus. Somos convidados a viver uma nova relação com Ele – numa comunhão plena entre a partilha do pão; a misericórdia e o perdão. Portanto, para Jesus o elemento prioritário é sempre o Reino de Deus (cf. Mt 6,33).

A IGREJA E O REINO DE DEUS

“Foi do lado de Cristo adormecido na cruz que nasceu o Sacramento admirável de toda a Igreja” (SC n.5). A Igreja que é sal da terra e luz do mundo, convida todos para formar uma só família, um só povo Deus – renovados em Cristo Jesus.

A Igreja dentro do contexto, não é a questão primária, a questão fundamental é, na realidade, a que diz respeito à relação do Reino de Deus com Cristo. Daqui depende como nós havemos de compreendê-la. Anunciar e instaurar o Reino de Deus é o múnus da Igreja para todos os povos. Na terra ela é o germe e o início deste Reino inaugurado por Jesus.

“Assim como Cristo percorria todas as cidades e aldeias, curando todas as doenças e todas as enfermidades, proclamando o advento do Reino de Deus, do mesmo modo a Igreja, por meio dos seus filhos, estabelece relações com os homens de qualquer condição” (AG n.12).

Já os próprios Apóstolos em que a Igreja se alicerça, seguindo o exemplo de Jesus, pregaram a palavra da Verdade e geraram as igrejas. Aos seus sucessores compete perpetuar esta obra, para que a palavra de Deus se propague rapidamente e seja glorificada (cf. 2 Ts 3,1), estabelecendo o Reino de Deus em toda a terra.

COMO DESFRUTAR ESTE REINO AGORA?

“Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas” (Mt 6,33). É neste mundo e nesta história que somos chamados a responder à sua interpelação. A meditação-reflexão sobre o Reino só tem sentido fecundo num clima de oração constante à Santíssima Trindade, único Caminho para reconhecer e perceber o valor do Reino, tanto no tempo presente, como em sua plenitude na eternidade.

O Reino é como a semente depositada na terra, que crescerá por seu próprio poder como o grão. Já, agora, somos as sementes que devem crescer e gerar ótimos frutos, tanto pessoais, como para com o próximo. Mas para isso é preciso buscar, confiar e praticar as revelações anunciadas no Segundo Testamento.

Confiando em todas as bênçãos e todas as graças alcançadas pelo derramamento do amor da Santíssima Trindade, e praticando atos de caridade plena ao próximo, já se coloca em unidade para receber o dom do Reino. Dom pessoal que suscita uma resposta que só pode ser traduzida em amor.

O Papa Francisco afirmou que toda lei divina se resume no amor a Deus e ao próximo. O sinal visível com o qual os cristãos testemunham ao mundo o amor de Deus é o amor pelos irmãos. O Papa explicou que o mandamento do amor a Deus e ao próximo não é o primeiro porque está no topo da lista dos mandamentos. Ele disse que Jesus não o coloca no alto, mas no centro, porque é o coração de onde tudo deve começar e retornar, é a referência.

O Reino de Deus não consiste em palavras, mas em atos –, e quando praticados benevolentemente, Deus governa o coração do fiel, e através do Seu Espírito infunde o Seu Reino de Paz e Felicidade, mesmo diante das tribulações. Não se perturbe e nem tema o seu coração; creia em mim e tenha confiança em minha misericórdia (cf. Jo 14,27).

Quando pela graça, contempla-se o Reino que já se faz presente, e que o Amor-Ágape de Deus é Justiça, Paz e Alegria no Espírito Santo,  a fé suscita o quanto pode-se viver agora todo o esplendor do Reino de Deus.

Por Cristo, com Cristo, e em Cristo.

REFERÊNCIAS:

Bíblia de Jerusalém

Documentos do Concílio Ecumênico Vaticano II

Imitação de Cristo. Tomás kempis

Jesus de Nazaré. Papa Bento XVI

Novo dicionário de teologia. Sinclair B. Ferguson

O encontro com Jesus vivo. Alfonso G. Rubio

 

Orlando Polidoro Junior

Teólogo pela PUCPR e Pastoralista

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