07º Domingo do Tempo Comum – Ano C

Tema do 7.º Domingo do Tempo Comum

A liturgia deste domingo exige-nos o amor total, o amor sem limites, mesmo para com os nossos inimigos. Convida-nos a pôr de lado a lógica da violência e a substituí-la pela lógica do amor.
A primeira leitura apresenta-nos o exemplo concreto de um homem de coração magnânimo (David) que, tendo a possibilidade de eliminar o seu inimigo, escolhe o perdão.
O Evangelho reforça esta proposta. Exige dos seguidores de Jesus um coração sempre disponível para perdoar, para acolher, para dar a mão, independentemente de quem esteja do outro lado. Não se trata de amar apenas os membros do próprio grupo social, da própria raça, do próprio povo, da própria classe, partido, igreja ou clube de futebol; trata-se de um amor sem discriminações, que nos leve a ver em cada homem – mesmo no inimigo – um nosso irmão.
A segunda leitura continua a catequese iniciada há uns domingos atrás sobre a ressurreição. Podemos ligá-la com o tema central da Palavra de Deus deste domingo – o amor aos inimigos – dizendo que é na lógica do amor que preparamos essa vida plena que Deus nos reserva; e que o amor vivido com radicalidade e sem limitações é um anúncio desse mundo novo que nos espera para além desta terra.

LEITURA I – 1 Sam 26, 2.7-9.12-13.22-23

A primeira leitura, tirada do primeiro Livro de Samuel, faz parte de um conjunto de tradições que descrevem a história da ascensão de David ao trono (1 Sam 16 – 2 Sam 6). Neste texto, apresenta-se um episódio emblemático que precede a chegada de David ao poder. Escolhido por Deus, mas perseguido pelo ciumento rei Saul, David tem de fugir para salvar a sua vida, enquanto espera que se cumpram os desígnios de Deus. Um dia, David tem a possibilidade de matar Saul e acabar com a perseguição; mas recusa-se a erguer a mão contra “o ungido do Senhor”. Este quadro situa-nos por volta de 1015 a.C.
O livro de Samuel não é, primordialmente, um livro de história, mas um livro de teologia; assim, é impossível dizer o que é rigorosamente histórico neste conjunto de tradições e o que é catequese. Podemos dizer, a propósito do episódio que a liturgia de hoje nos propõe, que os autores deuteronomistas, responsáveis pela redação e edição da obra histórica que vai de Josué a 2 Reis, estão, sobretudo, preocupados com uma finalidade teológica: apresentar David como o rei ideal, corajoso mas de coração magnânimo, o protótipo do homem que não se afasta dos caminhos de Deus, que pela sua bondade e misericórdia atrai para si e para o seu Povo as bênçãos de Jahwéh.

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 102 (103)

LEITURA II – 1 Cor 15, 45-49

O texto que nos é proposto como segunda leitura integra uma passagem mais ampla (cf. 1 Cor 15, 35-53), onde Paulo reflete sobre o “modo” da ressurreição. Como ressuscitarão os mortos? As crenças judaicas do tempo concebiam o mundo dos ressuscitados como uma continuação do mundo presente; no momento da ressurreição, dizia a crença judaica, todos recuperarão o corpo que tinham neste mundo. Evidentemente, tais representações não podiam ser facilmente aceites pelos espiritualistas de Corinto (recordar que, para os gregos, o corpo era uma realidade material, sensual, carnal, que não podia ter acesso ao mundo ideal e espiritual).
Que pensa Paulo de tudo isto? Ainda que saiba estar a mover-se num terreno misterioso, Paulo não se esquiva à questão e apresenta uma série de reflexões que podem ser clarificadoras para os seus interlocutores coríntios.

EVANGELHO – Lc 6, 27-38

Continuamos no horizonte do “discurso da planície” que começámos a ler no passado domingo. As “bem-aventuranças” (cf. Lc 6, 20-26) propunham aos seguidores de Jesus uma dinâmica nova, diferente da dinâmica do mundo; na sequência, Jesus exige aos seus uma transformação dos próprios sentimentos e atitudes, de forma que o amor ocupe sempre o primeiro lugar.

A exigência de amar e perdoar não é uma novidade radical inventada por Jesus. O Antigo Testamento já conhecia a exigência de amar o próximo (cf. Lv 19, 18); no entanto, essa exigência aparecia com limitações. Normalmente, o amor e o perdão ao inimigo apareciam limitados aos adversários israelitas (cf. 1 Sam 24, 26), aos compatriotas, àqueles a quem o crente vétero-testamentário estava ligado por laços étnicos, sociais, familiares, religiosos. Em contrapartida, o ódio ao inimigo – a esse que não fazia parte do mesmo povo nem da mesma raça – parecia, para o Antigo Testamento, algo natural (cf. Sal 35).
Jesus vai muito mais além do que a doutrina do Antigo Testamento. Para Ele, é preciso amar o próximo; e o próximo é, sem exceção, o outro – mesmo o inimigo, mesmo o que nos odeia, mesmo aquele que nos calunia e amaldiçoa, mesmo aquele de quem a história ou os ódios ancestrais nos separam (cf. Lc 10, 25-37). Os exemplos concretos que Jesus dá a este propósito (cf. Lc 6, 29-30) sugerem que não basta evitar responder às ofensas; é preciso ir mais além e inventar uma dinâmica de amor que desarme a violência, a agressividade, o ódio. Ele não nos pede, possivelmente, que tenhamos uma atitude cobarde, passiva ou colaborante perante a injustiça e a opressão; o que Ele nos pede é que sejamos capazes de gestos concretos que invertam a espiral de violência e de ódio: trata-se de não responder “na mesma moeda”; trata-se de estar sempre disposto a acolher o outro, mesmo o que nos magoou e ofendeu; trata-se de estar sempre de mão estendida para o irmão, sem nunca cortar as vias do diálogo e da compreensão. O amor é a única forma de desarmar o ódio e a violência… Só assim os crentes imitarão a bondade, o amor e a ternura de Deus.
A afirmação de Lc 6, 31 costuma ser chamada a “regra de ouro” da caridade cristã: “o que quiserdes que os homens vos façam, fazei-lho vós também”. Indica que o amor não se limita a excluir o mal, mas que implica um compromisso sério e objetivo para fazer o bem ao próximo. Devemos, no entanto, rejeitar qualquer compreensão “mercantilista” desta regra: o que se procura é o bem do outro e não a estrita reciprocidade. Os versículos seguintes (cf. Lc 6, 32-35) acentuam esta perspetiva e garantem que só quem faz o bem de forma gratuita, sem cálculos e sem esperar nada em troca, pode ser “filho de Deus”.

Fonte: http://www.dehonianos.org

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