Na alegria da Verdade, a Teologia do Amor Trinitário  transforma os corações dos fiéis.

Com um título amplamente propositivo diante do Deus revelado em Jesus, O Cristo, a Constituição Apostólica Veritatis gaudium [a alegria da Verdade], trata sobre as universidades e as faculdades eclesiásticas, e segue na mesma linha da reforma proposta pelo Papa Francisco.

O documento do Magistério atualiza a Constituição Apostólica Sapientia Christiana de 1979, de João Paulo II, porém, traz algumas características marcantes do pontificado de Francisco, entre elas destacamos duas: o fundamento do kerigma de Cristo Jesus (cf. Jo 15,11), proclamado com louvores no Concílio Ecumênico Vaticano II; e na alegria da Verdade, uma Teologia que ultrapasse os muros acadêmicos – em saída – construída para os fiéis, numa caminhada pastoral com linguagem popular; discernida e praticada em plena comunhão com a essência do AMOR TRINITÁRIO (cf. VG n. 1).

Nossa reflexão é pertinente ao tema e a este momento de Francisco, que marca uma nova etapa de evangelização para os católicos. Por isso, a importância do saber teológico em todas as dimensões da vida. Se os estudos teológicos/eclesiásticos não forem construídos e compartilhados na alegria da Verdade (cf. Jo 14,6), plenificada no Amor incondicional da Trindade Santa – presente em todo o evento Cristo, o sentido da fé dos fiéis [sensus fidei fidelis] entra no “ritmo da modernidade”, e com isso o povo de Deus fica muito longe da graça, da alegria e da paz promovida pelo Deus Pai, pelo Deus Filho e pelo Deus Espírito Santo.

DESAFIO

O objetivo deste artigo é eminentemente especulativo, entretanto, tem o propósito de provocar os gestores e as instituições de ensino que ministram cursos de Teologia (todos os níveis), como também, leigos estudantes desses cursos, e clérigos, pois, in-diretamente estão ligados a eles.

Frente à inquietante realidade de que existem formandos em Teologia concluindo seus cursos com a maioria dos mesmos conceitos cristãos produzidos sem grandes referenciais, melhor dizendo, não avançando no tema da plenitude do Amor Trinitário, desta maneira continuam praticamente baseados nas fracas catequeses que receberam [senso comum]. Pior ainda, alguns saem confusos e em conflitos sobre os aprendizados adquiridos nestes dois momentos considerados bem distintos.

Se o teólogo (a) não discernir, para que possa agregar em sua caminhada profética a essência do plano de Deus para nós – totalmente plenificado em Seu Amor incondicional e Sua misericórdia, e continuar com “aquela teologia pregada no peso da cruz”, sempre carregada de sentimentos de culpas e de alguma forma de débito com Deus, assumidos desde o pecado original, somados a tantos outros erros praticados durante a vida […], quando será aplicada toda a benevolência da Teologia da Graça Original  que, em Verdade (cf. Jo 5,24; 14,12),  liberta e enche o coração de alegria? “Nenhum pecado humano, por mais grave que seja, pode prevalecer sobre a misericórdia ou limitá-la” (FRANCISCO, 2016, p.85).

Independente da instituição de ensino ou do tipo de curso, algumas vezes, em razão do fraco desenvolvimento pessoal durante o aprendizado teológico [envolvimento e comprometimento], sem perscrutar e progredir sobre a base fundamental do Plano de Deus, alguns teólogos acabam criando uma teologia carente e fraca, sempre embasada nos mesmos pré-conceitos cristãos, àqueles que bloqueiam e aprisionam, pois são insuficientes para anunciar, com louvores, o quanto a Graça da Boa-Nova é capaz de transfigurar a vida dos que creem.

Segundo o Papa Francisco, “A Teologia é ‘imprescindível’ para repensar os temas da fé cristã na cultura atual. Precisamos de uma Teologia que ajude todos os cristãos a anunciar e mostrar, sobretudo, o rosto misericordioso de Deus”.

A reflexão do Papa soma-se ao nosso desafio de contemplar, pelo menos um pouco sobre os estudos teológicos, e o quanto a essência do Amor Trinitário aparece numa dimensão de resposta – condizente e louvável diante da proposta do ser teólogo no plano terreno do Reino de Deus (cf. VG art. 70. §2.).

A TEOLOGIA DO AMOR TRINITÁRIO

Sem entrar na etimologia ou na semântica da palavra Teologia, porém, usando uma linguagem popular, mas bem definida no cristianismo, sabemos que é um estudo/saber, considerado limitado para conhecer a Deus. Contudo, Seu plano de Amor para nós está plenamente revelado em Cristo Jesus (cf. Jo 1,1.9.14).

A Teologia é uma ciência comunitária por excelência, neste sentido, sua principal função diante do sentir à realidade da comunidade é a de conhecer e desenvolver, em Verdade, a grandeza da revelação Divina, para que, frente à real história do povo, possa frutificar reflexões dignas de serem assimiladas pelos fiéis e também pelo Magistério [Teologia progressiva, sustentada pela via da graça – contemplada mediante a misericórdia da Santíssima Trindade]. “Entender o mistério de Jesus Cristo não é uma coisa de estudo – porque Jesus Cristo é entendido somente por sua graça” (Papa Francisco).

De acordo com a Constituição Dogmática Dei Verbum n. 24-25, para absorver com sabedoria os ensinamentos das Escrituras Sagradas, é preciso alguns referenciais seguros, todavia, independentemente disso, até mesmo um fiel que não têm muitas habilidades para interpretá-la sozinho, quando desenvolve uma leitura ou um estudo minucioso, encontra respostas condizentes do Deus que se manifesta em bênçãos, graças e Amor na história do seu povo amado. Mas quando o crente desfruta dos Escritos Sagrados e também busca à Tradição e os teólogos (cf. VG art. 70. §1.), aí sim consegue interpretar mais adequadamente seus entendimentos em relação ao amor da Trindade Santa.

Mesmo consciente que a divindade do nosso Deus é metafísica e transcende nossa capacidade lídima de compreensão/razão, buscando essas fontes seguras, o Amor Trinitário se transforma em graças que animam e fortalecem a vida do fiel (cf. Mt 28,19; Jo 14,26; Rm 1,20; 2Cor 13,13; 1Jo 5,7-8).

Contudo, mesmo transcendendo nossa limitação de entendimento pleno, vivemos e praticamos uma fé construída principalmente através da experiência superabundante do Deus vivo – encarnado em Jesus (cf. Jo 14,7).  A Boa-Nova é a prova fundamental que recebemos como testemunho do seu Amor-Ágape por todos os seres humanos. Com esta grande e feliz notícia, vivemos agraciados com uma nova e eterna aliança (cf. Mt 26,28); um novo sermão da montanha que nos aponta novos preceitos (cf. Mt 5-7), porém, novamente por Amor, para os que creem e confiam, agora conduzidos pelo Espírito Santo (Jo 16,13)

Como Deus é puro amor – e desde a criação feita por Amor e com Amor, quando em Sua glória admirou tudo de bom (cf. Gn 1,31a), é na evolução desta criação que os Três Divinos nos contemplam e nos completam com sua infinita bondade e misericórdia (cf. Ef 2,4; Tt 3,5; Hb 4,16; Tg 3,17).

O Amor Trinitário é vivo está consagrado e pode ser admirado em toda criação – desde o princípio – até o momento escatológico – cheio de paz, pois transfigura o ser humano para a eternidade (cf. Ef 2,4-5) com a resplandecente imagem de Deus – imagem gloriosa de amor incondicional e infinito.

COMO OS MESTRES TRADUZEM A MANIFESTAÇÃO DO AMOR TRINITÁRIO EM SUAS DISCIPLINAS?

A formação de um teólogo (a) está embasada numa tríade fundamental: o próprio estudante e seu desejo de evoluir/comprometimento; as disciplinas aplicadas e a seleção de seus conteúdos; e o conhecimento e a didática dos mestres.

Conscientes de que cada disciplina tem um propósito específico na grade dos cursos, sendo uma somatória de aprendizados que se complementam e dão um sentido amplo de preparação, mesmo sabendo que O Deus do Amor, criou por Amor e chegou como Amor (cf. Rm 11,36), se as formações teológicas não forem bem conduzidas e administradas com base neste Amor, podem caminhar na contramão quando não desenvolvidas através de um diálogo iluminado sobre a essência desse Amor (cf. VG n. 5.).

Como Deus é Amor e a palavra Teologia significa estudo de Deus, por mais que as grades dos cursos contenham as disciplinas: Trindade, Cristologia,  Pneumatologia e Bíblica, é preciso avaliar qual o limite e qual o aprofundamento atingido para se chegar à raiz da grandeza deste amor incondicional – capaz de transformar.

As disciplinas dos cursos de Teologia proporcionam conhecimentos gerais, necessários para que se possa sistematizar uma estrutura teológica condizente. Contudo, pode-se questionar qual o caminho seguido para esta sistematização: Um deus que julga e condena? Um conjunto de normas e de regras da Doutrina Católica? Um Jesus de Deus no contexto bíblico? Uma história de fé, esperança e caridade com a graça constante do Amor da Santíssima Trindade? Ou sistematizam somente uma história do Deus bíblico? Segundo Buyst (2003) “seria não entender nada da palavra se tentássemos confiná-la num livro”.

Para poder estruturar uma grade teológica condizente com o plano de amor dos Três Divinos, é preciso alicerçar este plano em todas as disciplinas aplicadas, para que se possa situar e exaltar, com louvores e gratidão, todo este amor revelado até os nossos dias […].

Ousadamente, nossa reflexão sugere aos gestores e aos mestres dos diversos cursos de Teologia que, deem prioridade ao tema do Amor Trinitário em suas disciplinas, sejam elas quais forem… e até criem uma disciplina específica para tal, pois a partir de uma concepção iluminada deste paradigma, todas as outras serão assimiladas e sistematizadas com o mais relevante valor para um cristão: AMOR

[cristificado na vertical e na horizontal]

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A falta de aprofundamento sobre o Amor da Trindade Santa em cada uma das disciplinas, influencia e muito, o (a) estudante quando chega ao término do curso. Ou seja, como e qual será o sentido teológico que utilizará para anunciar o Evangelho? A lei do Amor (cf. Sl 135,1; Mt 22, 37-40; Jo 3,16; Rm 5,5. 8,37-39; Gl 5,22-23; 1Jo 5,3), ou a dos fariseus hipócritas (cf. Mt 23, 23-39).

Isto é um fator imensurável e fundamental para a evangelização diante de um mundo globalizado e altamente tecnológico, onde, cada vez mais as pessoas têm menos tempo para dedicar-se à vida espiritual e religiosa. É essencial que todo estudante de Teologia conclua seu aprendizado impressionado com a doutrina de Jesus (cf. Mt 7,28), e não com a cabeça cheia de um deus justiceiro, ou cheia de normas e rigorismos eclesiais. Como o clero passa pela Teologia, o Papa Francisco afirma que a igreja “só existe como instrumento para comunicar aos homens o desígnio misericordioso de Deus”.

 Alguns fiéis passam pelas Escrituras Sagradas sem compreender suficientemente toda a benevolência da Boa-Nova, para poder aplicá-la, com louvores, em sua vida e na vida do próximo, desfrutando de todas as bênçãos e de todas as graças promovidas e sustentadas pelo Espírito Santo: caridade, alegria, paz, paciência, afabilidade, bondade, fidelidade, brandura e temperança (Gl 5,22-23).

Na Teologia ocorre uma situação semelhante, por este motivo chegamos ao final dos cursos com três perfis de estudantes: àqueles que não conseguiram assimilar os conteúdos e muito menos a essência do Amor Trinitário; àqueles que assimilaram os conteúdos, mas não conseguiram discerni-los na essência do Amor Trinitário; e àqueles que conseguiram assimilar os conteúdos e discerni-los na essência do Amor Trinitário, e os levarão como fonte de graça e iluminação para suas vidas e para a vida do próximo.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Na alegria da Verdade, O Deus do Amor Trinitário se manifesta na história através de seus filhos amados. Então, é primordial descobrir e desfrutar esse amor em cada ser humano. Mas para isto, diante do atual contexto da sociedade e seu caminhar religioso e de fé, é imprescindível uma Teologia pastoral/missionária repleta da graça divina – potencializada pela via do Amor conquistado do céu – e compartilhado com o próximo.

Por Cristo, com Cristo, e em Cristo.

REFERÊNCIAS

Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002

BUYST, da Silva, J.A. O Mistério celebrado, memória e compromisso. São Paulo: Paulinas, 2003

Documentos do Concílio Ecumênico Vaticano II. São Paulo: Paulus, 2014

FRANCISCO, Papa. O nome de Deus é Misericórdia. São Paulo: Planeta do Brasil, 2016

________________. Constituição Apostólica Veritatis Gaudium.< http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/apost_constitutions/documents/papa-francesco_costituzione-ap_20171208_veritatis-gaudium.html>. Acessado em 16/02/18

Orlando Polidoro Junior

Pastoralista e teólogo pela PUCPR

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