Como é possível servir a Deus?

São inúmeros versículos contidos nos Escritos vetero e neotestamentário que revelam o quanto o crente fervoroso deve servir a Deus. Servi-LO é uma compreensão habitual construída como fundamento – principalmente no cristianismo, mas também entre os que creem e O identificam por atributos como: Criador, Pai, Senhor, Divino, Todo-Poderoso […].  Porém, o que é necessário e com quais ações o (a) fiel torna esse ato de fé “reconhecido e meritório” perante Ele?

Tradicionalmente – com base nos Textos Sagrados e nas catequeses ministradas pela Igreja Católica, a forma de entendimento de servir a Deus está diretamente ligada em seguir suas leis; seus mandamentos, suas ordens. Embasado neste raciocínio, o “senso comum” quando convertido em valores cristãos, quase sempre é diretamente interpretado e associado a atos pecaminosos. É como se não pecar bastasse, fosse o suficiente ou servisse como “valoração” para Deus reconhecer e acrescentar mais “créditos” aos menos pecadores.

   Mas como nosso Deus não é um deus contábil, pois se o fosse deixaria de ser Deus, por isso, de forma alguma é condizente pensar em servi-LO pela via de méritos, imaginando que isto possa aumentar a pontuação devido à supostas ou até verdadeiras ações dignas de um cristão (ã), crendo que exista uma escrituração do Senhor registrando posições privilegiadas no ranking dos “prováveis” ao Reino Superior.

Para discernir com sabedoria este antagonismo, é bom refletir sobre as palavras de Jesus de Nazaré em Lucas 13,18.20 buscando respostas contundentes para o que Ele quer dizer sobre a “semelhança” e a que “comparar” ao Reino de Deus.  O Evangelho de Lucas 17,21 e a epístola aos Romanos 14,17-18 dão pistas bem louváveis para que o fiel perceba que a transfiguração ao Reino terreno – com justiça, paz e alegria no Espírito Santo, ocorre pela Graça da SS Trindade [Pericórese], e não por créditos/méritos (cf. Rm 3,24; 11,6; Ef 2,8-9; Tt 2,11).  Nada, absolutamente nada está acima e nem pode entrar em antinomia à Graça. Ela acontece estando ou não o ‘ser humano’ com o coração aberto para recebê-la. Nenhuma criatura de Deus é capaz e nem têm poderes controladores sobre a Graça Divina – pois é Graça!

“Peçamos ao Senhor que nos faça compreender a lei do amor. Que bom termos esta lei! (Evangelii Gaudium 101).

Contudo, com certeza, na Verdade da Boa-Nova, uma vida com retidão na vertical se torna plena e gloriosa quando, no plano horizontal [chão da vida], o servo vivencia um universo de amor, e em resposta age com intensa caridade ao próximo. Isto sim é servir, pois engrandece e aproxima ainda mais o (a) fiel, fortalecendo um estado virtuoso de amizade com a Santíssima Trindade. O Evangelho de Jesus propõe: “Vós sois meus amigos, se praticais o que vos mando” (Jo 15,14). Mas o que Ele manda? Pede que amemos ao próximo (cf. Mt 5,43-44; Rm 13,8; 15,2; 1Co 16,14; Cl 3,12-15; Hb 13,1-3; Tg 2,8; 1Pd 4,8; 1Jo 3,11.15-16;4,7-8). Quando pela Graça – os cocriadores – transfigurados ao Amor se colocam a serviço de Deus-Trino, formam um exército que luta pelo amor de toda criação.

“Devemos amar o nosso próximo, ou porque ele é bom, ou para que ele se torne bom” (Santo Agostinho).

Quando há respeito e amor entre as criaturas de Deus – esta é a Sua Glória, isto porque Ele não precisa de nada que se possa oferecer como forma de “sustento/fortalecimento” para Seu Potencial Divino, Absoluto e Pleno. Seguindo este pensamento, é jubiloso crer que a caridade vai ao encontro de seu coração Trinitário, preenchendo; consagrando, nutrindo e alegrando seu Plano de Amor Ágape para/entre todos.

Refletindo sobre a Teologia do Primeiro Mandamento, que o ressaltamos/contemplamos como “adorá-LO” acima de tudo, esta ação só transcende mesmo através de expressões de amor pleno ao próximo. Sabe a reação de um verdadeiro pai ou uma verdadeira mãe quando alguém maltrata seu filho? É de raiva, de rancor e de tristeza. Não que Deus-Pai/Mãe sinta algum desses sentimentos por suas criaturas, mas sem dúvidas a falta de respeito e amor a seu filho/nosso próximo, não alimenta sua glória, e em nada se configura como servi-LO. “Todos vôs, conforme o dom que cada um recebeu, consagrai-vos ao serviço uns dos outros, como bons dispenseiros da multiforme graça de Deus” (1Pd 4,10).

“A fonte do amor ao próximo encontra-se no amor a Deus” (São Pio X).

Como não é possível adivinhar o que Deus pensa, a não ser seu desejo de transbordar em cada um de nós sua misericórdia e seu amor incondicional, então, nada que a Ele se ofereça como incremento [orações, Celebrações, ritualismos, sacramentais, assistencialismos, ministérios pastorais e sociais, etc.], que não deixam de ser obras/frutos de ações resplandecentes de fiéis com o coração cheio de fé e de esperança, é maior e mais consagrado do que a caridade (cf. 1Cor 13,4-8), aplicada como dom do respeito e do amor pleno ao próximo,certamente, atos de discípulos missionários – edificadores do Reino.  É isso que Cristo Jesus nos ensinou e espera de todos (as) como forma de servi-LO’s. Vale ressaltar o que São Paulo proclamou em 1Cor 13,13 “Agora, portanto, permanecem fé, esperança, caridade, essas três coisas. A maior delas, porém, é a caridade”. Como entender a caridade? (1Cor 13,1-13).

Conforme João 1,14, Deus assumiu a nossa carne, e Independente do sentido de salvação [gratuita] de todos na mensagem de Mateus 20,28, “seu Ser como humano” – manso e humilde é tão esplêndido, que na exaltação do lava-pés (Jo 13,4-17) Ele transpassa e “derruba” todo e qualquer sentimento de superioridade. O momento é tão digno e glorioso, contudo, não reconhecido por Simão Pedro que questiona… e Jesus responde: “Se eu não te lavar, não terás parte comigo” (Jo 13,8). “Se, portanto, eu, o Mestre e o Senhor, vos lavei os pés, também deveis lavar-vos os pés uns dos outros. Dei-vos o exemplo para que, como eu vos fiz, também vós o façais” (Jo 13,14-15). A mensagem é clara e objetiva. Será que já compreendemos isso?

Por Amor – desde o princípio – Deus tem nos servido, colocando à nossa disposição todo o esplendor de Sua Obra […] Em Mateus 20,28 e Marcos 10,45 Jesus anuncia que não veio para ser servido […] e em Jo 14,16.26 promete enviar Seu Espírito Santo para revelar o quanto o amor/servir ao irmão transforma o Reino terreno.

“O amor nada mais é do que o brilho de Deus nos homens”. (São Pio de Pietrelcina).

Quando o (a) fiel permite que o Amor enviado do céu acompanhe sua vida e ilumine/sirva a vida do próximo, certamente está servindo a Deus. Esta reflexão ajusta-se à meditação do Papa sobre o Evangelho de Mt 10,7 na missa celebrada em 11 de junho/19 em Santa Marta. Ele usou “serviço” e “gratuidade” como palavras-chave fundamentais que devem acompanhar o cristão “pelo caminho”, “porque um cristão não pode ficar parado”.

Francisco disse que “a vida cristã é andar – preguem, sirvam, não se sirvam de”. “Sirvam e deem de graça o que receberam de graça”. Concluiu: “a vida nossa de santidade seja esse ampliar o coração, para que a gratuidade de Deus, as graças de Deus que ali estão, gratuitas, que Ele quer doar, possam chegar ao nosso coração”. 

“Evangelize sempre, se necessário use palavras” (São Francisco de Assis).

Por Amor e com o amor revelado em toda a vida e todo o Evangelho de Jesus, podemos concluir que a mais perfeita tradução que o fiel deve interpretar e vivenciar sobre como servir a Deus – é a do servir/amar ao irmão.

Pela fé e com esperança, todos que se identificam como cristãos e são “maduros na caridade – com louvores continuam escrevendo o ato dos apóstolos”. Atos de anunciar a palavra; atos de fé, atos de partilha e de puro amor. Atos de compreensão ao próximo; atos de aceitar e não julgar, respeitando todas as diferenças, todas! É preciso dar-se em amor buscando construir eternos momentos de paz e de felicidades entre todos. Isto certamente “serve” e transborda de alegria o coração Uno e Trino de Deus.

POR CRISTO, COM CRISTO, EM CRISTO.

Orlando Polidoro Junior

Teólogo pela PUCPR e pastoralista

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