A Mãe de Deus

“Quando se completaram os oito dias
para a circuncisão do menino,
deram-lhe o nome de Jesus,
como fora chamado pelo anjo antes de ser concebido.” (Lc 2, 21)

Toda a problemática com este título atribuído a Virgem Maria surge de um questionamento de Nestório, patriarca de Constantinopla em 428. Ele compreende que Cristo era somente um ser humano extraordinário, distinto do Filho de Deus, unido a Divindade, porém não verdadeiro Deus. Não entendia como Deus poderia ser humano, já que sua Divindade supera em tudo o humano. Ele assim se opõe a palavra Theotókos, empregada pelos cristãos no século V, que significa aquela que gerou Deus, Deípara ou Mãe de Deus.

Com o Fiat, o sim de Maria a vontade de Deus e seu plano de Salvação da humanidade começam a realizar-se. O Filho de Deus por obra do Espírito Santo é concebido no seio da Virgem Maria. Maria assim gerou um verdadeiro homem, que não deixou de ser verdadeiro Deus. Maria assim é a Mãe do homem Jesus Cristo, pois o assume e dá tudo aquilo que uma mãe pode dar. Não há separação entre natureza e a pessoa apesar da distinção entre as mesmas. Maria gerou então a natureza humana de Jesus.

A formulação do concílio de Éfeso em 431 nos mostra que “A Santa Virgem é Mãe de Deus, porque deu à Luz carnalmente o Verbo de Deus feito homem. ” (DH 113). Maria como podemos observar não gerou a Divindade Deus, mas gerou o Verbo de Deus que se fez homem, por isso sua dignidade de Mãe de Deus. O Filho de Deus assim foi semelhantes aos seres humanos em tudo, menos no pecado. Da Santíssima Virgem nasceu o corpo sagrado do Verbo Divino, que possuía uma alma racional que se uniu ao Verbo de Deus. Professamos assim uma só Pessoa Divina com duas naturezas a divina e a humana unidas no Verbo de Deus como demonstra a formulação de Calcedônia posteriormente em 451.

Interessante ressaltar que o primeiro pai da Igreja a utilizar a formula Theotókos, Mãe de Deus, foi Orígenes. Santo Tomás afirma assim na Suma Teológica: “Ela é a única que junto com Deus Pai pode dizer ao Filho de Deus: Tu és meu Filho. ”

Devemos ressaltar que toda a Dignidade de Maria vem em razão de seu Filho Jesus Cristo, inclusive a preservação do pecado. Cabe ressaltar aqui que este mistério é por demais extraordinário que talvez nossa inteligência e razão não consigam penetra-lo da forma correta e profundamente.

Dom Estevão Bettencourt afirma: “Maria é a Mãe de Deus, não enquanto Deus sem mais, mais enquanto Deus feito homem”. Para realizar de fato a vontade e a proposta de Deus Maria foi agraciada por Deus como a cheia de graça em razão de tal missão de ser Mãe do Filho de Deus humanado. Deus escolheu Maria de forma livre e generosa, mesmo sem Maria compreender tudo do que lhe era proposto. Os Santos Padres dizem que primeiro Maria concebeu o Filho de forma espiritual, acolhendo a Palavra que Deus lhe direcionou para depois gerar de forma carnal o Verbo Divino em seu ventre. Maria é a Filha de Sião, que gera o Verbo para a Salvação dos homens, ela assim coopera na missão salvífica de Deus.

O Filho de Deus poderia ser gerado de forma biológica por José e Maria. Mas, Deus não desejou participação humana neste nascimento. Pois, o Filho de Deus já possuía um Pai no Céu sendo Deus; sendo homem é Filho de Maria, devido a ação de Deus e sua vontade. Deus se fez humano, não humano comum, mas, o Filho é Deus e homem.

A concepção acolhida por Maria pelo seu Fiat ou faça-se, se dá devido a pessoa de Jesus Cristo que é gerado no ventre da Virgem.  Portanto, toda a dignidade de Maria diante de Deus se dá em razão do Filho de Deus gerado em seu ventre.

Assim nos diz Muller: “Maria não deu à luz um ser humano com o qual posteriormente se uniu ao Logos, mas deu à luz a pessoa do Logos na natureza humana que assumiu a partir dela”.

No Concílio de Éfeso (431) proclamou solenemente tal realidade condenando as teses de Nestório de separação das naturezas em Cristo. O Verbo, o Filho, o Logos procede unicamente de Deus, sua humanidade sim procede da Virgem Maria. Assim, não são dois filhos, mas um único Filho em duas naturezas humana e divina.

Ao compreendermos esse título sublime da Virgem Maria como a Theotókos, possamos entender que Deus pela Encarnação do seu Filho, o Logos Eterno, se fez presente em nossa história se fez como nós, com exceção do pecado. Deus se fez homem para se aproximar de nós e levar seu plano de salvação a seu termo.

Esse mistério da maternidade divina nos faz penetrar no novo ano civil. Quando tudo parecia escuro e tenebroso, Deus manifesta seu amor, sua luz penetrou nossa vida. A Virgem Maria, a Mãe de Deus, mesmo na penumbra da fé, aceitou firmemente realizar a vontade de Deus. Mesmo não entendendo tudo que se daria ou aconteceria.

Muitas vezes nós não entendemos aquilo que a vontade de Deus quer realizar em nossa história, não compreendemos sua vontade. Por mais que tenha sido um ano complicado e difícil para muitos, devemos render graças a Deus por esse ano que se finda, pois Ele mesmo nos conduz por sua mão. Assim como conduziu Maria, Ele nos conduz.

Desejo que você leitor e amigo do nosso apostolado possa realizar essa mesma experiência da Virgem, Aquela que acreditou, para que de fato sua vida possa ter o sentido em Deus e em seu Filho.

Desejo a todos vocês amigos, leitores e colaboradores do Apostolado Doutrina Católica um Feliz e Santo Ano Novo Civil de 2020.

Júnior Monteiro – Apostolado Doutrina Católica – Fides et Spes

Fontes do Artigo:

Curso de Mariologia de Dom Estevão Tavares Bettencourt

Dogmática católica: Teoria e prática da teologia de Gerhard Ludwig Müller

Mãe de Deus e mãe nossa de Antonio Orozco