Festa da Apresentação do Senhor – Ano A

No “Dia da Vida Consagrada”, a liturgia celebra a “Apresentação do Senhor” no Templo de Jerusalém. Esse ícone – que expressa a entrega total de Cristo, desde os primeiros momentos da sua existência terrena, nas mãos do Pai – convida todos os consagrados e consagradas a renovar a sua entrega nas mãos de Deus e a fazer da própria existência um dom de amor, um testemunho comprometido da realidade do Reino, ao serviço do projeto salvador de Deus para os homens e para o mundo.

Profecia de Malaquias 3, 1-4

O nome “malaquias” não é um nome próprio. Significa “o meu mensageiro”. É o título tomado por um profeta anónimo, sobre o qual praticamente nada sabemos e que se apresenta como “mensageiro” de Jahwéh. Atuando na Jerusalém do período posterior ao regresso da Babilónia, é um fervoroso defensor da tradição dos valores judaicos, um fervoroso pregador de reformas, um zeloso defensor do culto autêntico, favorável ao Templo já reconstruído (cf. Mal 1,10), preocupado com a pureza dos sacerdotes e dos levitas, defensor dos sacrifícios, diante de um culto que funcionava, mas de maneira imperfeita (cf. Mal 1,7-9. 12-13), contrário aos matrimónios mistos (entre judeus e não judeus).
Este quadro, posterior à restauração do Templo, situa-nos na primeira metade do séc. V a.C. (entre 480 e 450 a.C.), muito próximo da época de Esdras e Neemias.
Este “mensageiro de Deus” reage vigorosamente contra a situação em que o Povo de Judá está a cair e que veremos mais adiante. Coloca cada um diante das suas responsabilidades para com Jahwéh e para com o próximo, exige a conversão do Povo e a reforma da vida cultual.
A lógica deste mensageiro é construída numa base deuteronomista: se o Povo se obstinar em percorrer caminhos de infidelidade à Aliança, voltará a conhecer a morte e a infelicidade; mas se o Povo se voltar para Jahwéh e cumprir os mandamentos, voltará a gozar da vida e da felicidade que Deus oferece àqueles que seguem os seus caminhos.
Apenas a título de exemplo, podemos ler Dt 30,15-20, para entender que a conceção da vida e da felicidade do povo de Israel depende de uma escolha, em que a escolha pelos caminhos de Jawéh conduz à vida e à felicidade, ao passo que a escolha pelas forças próprias e sobretudo contrárias a Jawéh conduz à morte e à ruína.
Diante de nós, temos um Povo desanimado por ver que as antigas promessas de Deus, veiculadas por Ezequiel e pelo Deutero-Isaías, não se tinham cumprido. Tinha, por isso, caído na apatia religiosa e na absoluta falta de confiança em Deus…
Duvidava do amor de Deus, da sua justiça, do seu interesse por Judá. Ora, todo este ceticismo tinha repercussões no culto, cada vez mais desleixado, e na ética, em que se multiplicavam as falhas, as injustiças, as arbitrariedades.
Nada pior que olhar para trás em situações como esta: perder o sentido da vida e pensar que o Senhor nos abandonou.
É neste contexto que a palavra de Malaquias é dirigida ao Povo, em tempos de desânimo, mas também de perversidade. Mesmo se é uma palavra dura, acaba por sê-lo também de esperança porque mostra que o Senhor reporá a ordem: vai chegar o “Dia do Senhor”, esse momento decisivo em que Deus colocará cada um diante das suas responsabilidades e retribuirá a cada um conforme os seus merecimentos (cf. Mal 2,17-3,5).
Por isto mesmo, o “Dia do Senhor” é um dos conceitos mais ambivalentes de toda a Bíblia, por quanto contém de terrível, de sinais misteriosos, associado em alguns texto, como este, ao fogo, a elementos da criação que nos metem medo; por outro lado, é sempre um conceito positivo, porque mostra que Ele não abandonou esse Povo desanimado, mas virá e entrará no seu templo.
Em última análise, a mensagem do profeta é uma mensagem de esperança!

Epístola aos Hebreus 2, 14-18

Jesus é apresentado como o sacerdote por excelência que, ao oferecer ao Pai o sacrifício da sua vida, ao serviço do plano salvador de Deus, fez nascer o Homem Novo, livre da escravidão do pecado, promovido à categoria de “filho de Deus”. Esta “catequese” convida os discípulos a olhar para a cruz de Jesus, a interiorizar o seu significado, a seguir Jesus no dom total da vida, na entrega radical, no serviço simples e humilde aos irmãos.
A Vida Consagrada é uma forma privilegiada de viver e de testemunhar esta realidade.
A Carta aos Hebreus é um escrito de autor anónimo, aparecido provavelmente antes do ano 70, e cujos destinatários, em concreto, desconhecemos. Com o título “aos hebreus” poderia pensar-se num escrito dirigido aos cristãos provenientes do judaísmo, pelas múltiplas referências ao Antigo Testamento e ao ritual dos “sacrifícios” que a obra apresenta. Mesmo se uma tal hipótese é possível, isso não é totalmente seguro, uma vez que o Antigo Testamento era um património comum: todos os cristãos – quer os vindos do judaísmo quer os vindos do paganismo – assumiam esta primeira parte da Escritura Sagrada que viria a denominar-se o Antigo ou o Primeiro Testamento.
O que é certo é que se trata de cristãos em situação difícil: expostos a perseguições e que vivem num ambiente hostil à fé… Em tal situação, o desalento e a desesperança parecem tomar conta destes nossos predecessores na fé. Por isso, facilmente perdem o fervor inicial e acabam por ceder às seduções de doutrinas não muito coerentes com a fé recebida dos apóstolos…
A mensagem do autor vai revestir-se, por isso mesmo, de um colorido de esperança, claramente numa belíssima apresentação da figura de Jesus.

Evangelho de São Lucas 2, 22-40

Através das palavras e da catequese do evangelista Lucas, desenha-se aqui o quadro da “Apresentação de Jesus” no Templo de Jerusalém, a fim de ser “consagrado” ao Senhor.
A consagração de Cristo recorda-nos que a nossa vida se deve cumprir num “ecce venio”, numa entrega total nas mãos do Pai, ao serviço do projeto de salvação de Deus para os homens e para o mundo.
Não foi logo desde o início que os primeiros cristãos se interessaram por aquilo que, hoje, nós conhecemos como “Evangelhos da Infância” e de que faz parte este texto de Lucas. O interesse dos primeiros cristãos era, sobretudo, pela mensagem e proposta que Jesus fez; daí que os Evangelhos se centrem especialmente nas recordações sobre a vida pública e a paixão do Senhor.
Só num estádio posterior houve uma certa curiosidade acerca dos primeiros anos da vida de Jesus. Coligiram-se, então, escassas informações históricas sobre a infância de Jesus e amassou-se esse material com reflexões que a comunidade fazia acerca do Senhor. Partindo de algumas indicações históricas e desenvolvendo uma reflexão teológica para explicar quem é Jesus, Lucas apresenta a história da Infância de Jesus.
O objetivo de Lucas é responder à pergunta fundamental: quem é este Jesus?
O interesse do Evangelho pela apresentação de Jesus ao Templo
Lucas propõe-nos o quadro da apresentação de Jesus no Templo. Segundo a Lei de Moisés, todos os primogénitos, tanto dos homens como dos animais, pertenciam a Jahwéh e deviam ser oferecidos a Jahwéh (cf. Ex 13,1-2. 11-16). O costume de oferecer os primogénitos aos deuses é um costume cananeu. No entanto, Israel transformou-o no que dizia respeito aos primogénitos dos homens… Estes não deviam ser oferecidos em sacrifício, mas resgatados por um animal, imolado ao Senhor (vers. 23-24).
De acordo com Lv 12,2-8, quarenta dias após o nascimento de uma criança, esta devia ser apresentada no Templo, onde a mãe oferecia um ritual de purificação. Nessa cerimónia, devia ser oferecido um cordeiro de um ano (para as famílias mais abastadas) ou então duas pombas ou duas rolas (para as famílias de menores recursos), tradição a que o nosso texto faz referência (vers. 24). É neste contexto que este passo do Evangelho nos situa.
Na linha da apresentação de todas as histórias da infância de Jesus, também com esta Lucas pretende mostrar quem é Jesus e qual a sua missão no mundo. Ao sublinhar repetidamente a fidelidade da família de Jesus à Lei do Senhor (vers. 22. 23. 24), Lucas quer deixar claro que Jesus, desde o início da sua caminhada entre os homens, viveu na escrupulosa fidelidade aos mandamentos e aos projetos do Pai. Desde o início da sua existência terrena, Ele entregou a sua vida nas mãos do Pai, numa adesão absoluta ao plano do Pai. A missão de Jesus no mundo passa por aí, pelo cumprimento rigoroso da vontade e do projeto do Pai.

Fonte: https://www.dehonianos.org/