2617 ANOS SE PASSARAM PARA UM NOVO “EXÍLIO”.

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Pelo pensamento do povo hebreu o exílio Babilônico (597-538 a.C.) foi pela vontade de Deus. Mas será que Ele permite sofrimentos para poder superabundar Sua Graça sobre seu Povo?

Devemos crer que não, pois nossa fé quando bem compreendida em Jesus de Nazaré [Boa-Nova] ensina que o Criador Pai-Mãe não pune, não castiga, é misericordioso e sempre está conosco [Emanuel] manifestando abundantemente bênçãos, graças e milagres.

O exílio aconteceu por consequências do modo de vida daquele tempo, destacando como questão fundamental o “poder dos reinos”, que hoje, visto por outros ângulos não é diferente – está até bem mais acentuado – desenfreado por um sistema capitalista/consumista exagerado em todos os sentidos. Pelo poder dos estados, das empresas e pessoais, vivemos focados/conduzidos por um padrão social globalizado tipo: cada vez mais poder; ter mais, ser mais – aparecer mais, ou seja, mostrar-se melhor que o outro em tudo. Mas será que isso não nos afasta do próximo e ainda tira muito da nossa Paz? (cf. Jo 14,27).

Numa leitura tradicional dos Escritos veterotestamentários não é possível detectar, mas os exegetas afirmam que o povo vivia uma monolatria, isto é, mesmo crendo no Deus revelado na história [tradição oral], acreditavam em outros deuses como o do sol, da lua, da terra, da colheita, etc. Será que faltou revelação e fé para que pudessem crer que O Verdadeiro – por Amor seria capaz de conduzir plenamente suas vidas? Hoje não nos faltam revelações, mas os povos continuam idolatrando inúmeros “deuses disponíveis para consumo”. 

Que bom que Deus-Pai nos deu a Terra, nos deu o livre-arbítrio, nos deu sabedoria para desfrutar. Então, devemos sim produzir; devemos sim consumir, devemos sim nos preocupar com a qualidade de vida pessoal e de nossos filhos. Devemos sim comprar uma casa digna, um carro moderno. Devemos sim viajar para relaxar as tensões de nossos trabalhos e da vida cotidiana, mas tudo com moderação, menos no amor (cf. 1 cor 13,4-7).

Deus não permitiu o exílio e as maldades por ele provocadas para poder manifestar sua presença, contudo – pela Graça – o exílio fez o povo “acordar” e no silêncio de suas almas/espíritos, os escribas, inspirados, começaram a escrever, resultando em alguns conteúdos/livros do Primeiro Testamento. Mas o povo mais sofrido também pôde refletir com mais intensidade e profundamente sobre o Deus de Abraão e o quanto era essencial em suas vidas.

Certamente, tanto naquele tempo, como neste momento trágico de nossa história, Deus está sendo imensamente aclamado. O povo pede intercessão e Misericórdia. Mas por quanto tempo, até tudo passar?

Hoje, em “queda”, nosso orgulho onipotente como desenvolvedores do mundo moderno; da ciência e da tecnologia não nos permite sair de nossas casas e nos coloca numa quarentena familiar. Será que agora, “exilados”, tão junto de nossos familiares, como há tempos não vivíamos, “seremos capazes” de parar um pouco para podermos sacralizar nossas vidas ao próximo e ao Deus de Jesus de Nazaré?

Decerto que o Covid-19 surgiu do meio ambiente: alimentação repleta de cancerígenos, com destaque à industrial, poluição do ar, das águas, da vegetação, enfim, de tudo. Estamos conseguindo – por ganância, acabar com toda a natureza que nos sustenta em plenitude [Ecologia Integral]. Agora, portanto, fechados em nossas casas o planeta está conseguindo respirar mais aliviado – está aproveitando para se regenerar um pouco. A mídia já está divulgando algumas noticias surpreendentes nesse sentido.

O Covid-19 está integrado/construído pelo “sistema atual – perverso e exagerado” que estamos desenvolvendo. Provavelmente nesse ritmo, daqui alguns anos não teremos mais nosso [paraíso terreno] para desfrutarmos em paz. Todo ser humano deve ler, refletir e praticar sobre a louvável Laudato Si, Carta encíclica do Papa Francisco que aborda o cuidado da nossa Casa Comum. Somos cocriadores desse “paraíso”, mas a história nos mostra que estamos caminhando para uma destruição calamitosa. Para exaltar essa reflexão, sugiro a leitura dos números 5; 17; 43; 56; 109; 111; 127; 181 e 202 da Encíclica.

Em nossa quarentena/exílio, tempo complicado para todos, ainda mais por não sabermos como iremos sobreviver quando a ameaça acabar. Entretanto, estamos bem mais perto dos nossos, mas estamos sendo mais solidários e mais comunicativos [ao vivo] e como reagiremos como seres humanos após essa pandemia? Será que vamos nos preocupar mais com o próximo e com o planeta? Tem uma mensagem circulando nas mídias sociais “estamos suscetíveis ao corona vírus por falta de humanidade (imunidade). Bacana, né?

Após o exilio aproximadamente 433–5 a.C. houve o período interbíblico, ou intertestamentário, considerado por muitos como o “anos de silêncio”. E agora, após tudo isso também ficaremos em silêncio ou vamos proclamar ao mundo a Boa-Nova e o quanto necessitamos da Trindade Santa em nossas vidas e que por Ela, nos olhos do próximo abrimos uma janela para à santidade – para o Amor e para uma digna Comunhão fraterna. A Trindade é puro relacionamento de amor. “Quem me vê está vendo a Deus” (Jo 14,7).

O Cânon Bíblico está fechado, mas continuamos escrevendo o ato dos apóstolos – alguns ainda discípulos. Entretanto, será que as virtudes teologais estão na alma do cristão moderno? Fé mais intensa somente nos momentos difíceis? Esperança apenas em nossas conquistas pessoais? Caridade unicamente em forma de assistencialismos?

“Nossa carta sois vós, carta escrita em vossos corações, reconhecida e lida por todos os homens. Evidentemente, sois uma carta de Cristo, entregue ao nosso ministério, escrita não com tinta, mas com o Espírito de Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, nos corações” (2 Cor 3,2-3).

Precisamos escrever para as gerações futuras. Precisamos deixar marcado em algumas páginas da história, descrevendo claramente como e o quanto acreditamos em nosso Deus-Trino e como, pela fé, pela esperança e pela caridade [amor pleno ao próximo] Ele nos transformou em pessoas melhores.

Estamos passando por momentos que certamente nunca imaginamos passar e que agora estão nos desviando de nossas rotinas de trabalho, estudo, viagens, compras, restaurantes, academias […] e quando não é isso, é no smartphone, bem longe de quem estamos tão próximo.

Concluímos essa reflexão interrogando: onde está Deus nesse momento? Está se manifestando em cada intercessor (a) em orações pelo mundo. Está em plena Misericórdia em cada um presente nos mais diversos e complexos campos de batalha contra esse mal. Está dentro do coração de cada um de nós. Então vamos espalhá-lO por aí?

POR CRISTO, COM CRISTO, E EM CRISTO.

Orlando Polidoro Junior – Teólogo pela PUCPR