Milagres

Só reconhecemos os de Jesus de Nazaré nos Evangelhos, ou “identificamos muitos” como provas do amor de Deus?

O que é um milagre? Um acontecimento anormal e inexplicável pelas leis naturais e pela ciência; um prodígio, algo extraordinário/místico, surpreendente, fenomênico. Estas são algumas definições que a semântica descritiva da palavra nos apresenta. Entretanto, nem é preciso pesquisar para constatar e compreender os milagres que, por Amor, nosso Deus-Trino promove com o propósito de nos resgatar a paz e a alegria, certamente, fonte renovadora da alma – fonte inspiradora e promotora da confiança e da esperança.

Contudo, frente às intensas e mutantes realidades, algumas vezes perdemos a consciência e bloqueamos todas as possibilidades de “identificação e valorização” das bênçãos e dos milagres recebidos no dia a dia. Isso ocorre principalmente naqueles períodos da vida em que tudo caminha bem – repleto de paz por estarmos sem grandes problemas aparentes. Numa linguagem bem popular podemos denominar estes momentos como abençoados, glorificados, cheio das graças do Senhor. Com o coração transbordando paz espiritual, é fundamental não permitir o afastamento da fé; da busca, da entrega e, especialmente dos agradecimentos. Mas basta um dia após o outro para os períodos mais difíceis [por necessidade], tornarem-se de buscas e envolvimentos mais intensos com a Santíssima Trindade, fazendo com que se perceba o quanto a fé precisa ser alimentada todos os dias, e por ela, valorizarmos, reconhecermos e tomarmos posse das benevolências enviadas do céu.

As alegrias e as tribulações são atributos presentes na vida de todo ser humano, por isso, de forma natural fazem parte das narrativas bíblicas, mas, por Amor – como fonte de revelação para que o povo supere os momentos de dificuldades e desfrute em paz os de felicidades, os milagres, as graças e as bênçãos são constantes nos dois Testamentos. Mas não cessaram nos escritos, acontecem diariamente, ”sobretudo” na vida dos que confiam no Deus-Trino-Misericordioso, isto porque creem e, principalmente reconhecem essas manifestações.

  O Antigo Testamento relata a criação que é o primeiro milagre – superabundante – imensurável ao nosso entendimento [metafísico]. Mas seu maior conteúdo descreve a história do povo que Deus escolheu para se revelar e como esta revelação, repleta de milagres, vai sendo construída progressivamente no decorrer do tempo – no chão da vida.

Numa leitura comum o cristão não consegue detectar, mas num contexto exegético, é notório que o Deus Bíblico do Primeiro Testamento não foi o único que o povo sempre acreditou. São inúmeras passagens que fazem referências a outros deuses, e isto está explícito até nos mandamentos (Ex 20,3; Dt 5,7).  Foram três momentos até a revelação ser compreendida, aceita e professada pela maioria. Politeísmo: o povo acreditava em vários deuses supremos. Monolatria: continuava acreditando em vários deuses que supostamente respondiam às necessidades pontuais [deus do sol, da terra, da saúde, da agricultura, do amor etc.], mas de certa forma buscavam O Deus [YHWH] Supremo/Divino. Monoteísmo: Deus Único, Criador da terra e da vida – protetor e cuidador de todos. Foram séculos até esta revelação se tornar mais evidente, sendo a referência da fé dos Hebreus. No Livro de Isaias (40-55), que teve sua redação final (aproximada) entre 550-400 a.C. isso está bem definido. Sabe qual o propósito deste relato? Mostrar que, mesmo na fé com ou sem razão, Deus está presente na vida de todos

[inclusive pagãos]

, e em seu tempo e do seu modo manifesta inúmeros milagres e graças,para que suas criaturas compreendam, acreditem e desfrutem do seu Reino terreno (cf. Lc 17,20-21).

Assim como por um entendimento construído de forma literal e radical, ou por um conceito teológico mais investigativo e coerente em relação as alegrias do “Paraíso”, os tormentos provocados pela “queda” […], a caminhada para conquistar a Terra Prometida, o afastamento durante o exílio da Babilônia e o Reino de Deus anunciado por Jesus, em nenhuma passagem dos Livros Sagrados lemos que na vida terrena é tudo fácil, tranquilo e maravilhoso, sem sofrimentos – somente alegrias. A Graça Divina da felicidade plena só é justificada mesmo quando interpretada numa visão escatológica – elevada à vida eterna (cf. Mc 12,25; Jo 14,2; 1Cor 2,9; 2Cor 5,1). Entretanto, aqui, agora, conforme Romanos 15,13 o Espírito Santo conduz o cristão no caminho da paz e da esperança. Algumas vezes até os Bem-Aventurados (as), que mesmo em tempos de conflitos conseguem viver serenamente, não reconhecem o grandioso milagre da paz – do Reino em suas vidas.

Os milagres na missão de Cristo Jesus

Único mediador entre Deus e os homens, diante de sua condição humana – igual a nós em tudo [menos no pecado], mas suscitando a completude da sua vida terrena, Jesus sempre foi movido pela Misericórdia […] até o madeiro, fazendo com que os cristãos tenham uma visão mais substancial de seus milagres. Eles são reconhecidos e valorizados com maior magnanimidade quando comparados aos “surpreendentes” milagres narrados no Primeiro Testamento. Mas qual o propósito de seus milagres?

  Os quatro Evangelistas relatam 35 milagres realizados por Jesus durante os três anos de Seu ministério. Eles estão relacionados com curas, “ressurreição”, alimentação, natureza, expulsão de demônios e outros. Junto com o anúncio do Reino, seus milagres exaltam a revelação do Deus de Jesus e o Cristo de Deus. Na presença dos discípulos, Jesus operou também muitos outros milagres não descritos nos Evangelhos, mas os relatados servem para que creiamos que Jesus é O Cristo, O Filho de Deus, e que n’Ele e por via d’Ele é possível transfigurar nossas vidas (cf. Jo 20,30-31; 21,25).

Em Mateus, Marcos e Lucas, as quantidades de milagres revelados são semelhantes. O Evangelho de João é o que apresenta um número menor, porém, menciona dois com grandes significados para a fé cristã: o das Bodas de Caná que só consta em João, e o da multiplicação dos pães, o único relatado pelos quatro evangelistas. As exegeses extraídas destes dois milagres mostram como eles são relevantes e repletos de elementos que fortalecem e iluminam ainda mais a fé no Filho do Homem (cf. Jo 3,13).

Milagres. Uma herança espúria, ou verdadeiras revelações do Amor de Deus?

Crendo ou não num Deus Criador, o milagre da vida é muito real, e aceitemos ou não, ela é movida por alegrias e aflições. Diante destes fatos óbvios, também convivemos com os milagres, que existem mesmo não sendo explicados pelas leis da natureza. Mas a questão fundamental é, existe um Deus capaz de realizá-los?

  A Santíssima Trindade sempre se revela na história dos homens, então, como resposta para fortalecer a vida do cristão, é essencial identificar muitos dos inúmeros milagres e graças promovidos desde os tempos bíblicos até o presente

[inclusive com um olhar pessoal para o interior da alma/coração]

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 Como o Reino é extraordinário, isso até limita um pouco o ser humano em seu discernimento, mas, pela graça, em comunhão com o Deus-Trino, pequenos e grandiosos milagres, anormais ou até inexplicáveis acontecem para transformar e edificar a alma daquele que crê e os “identificam”.

 Assim com o povo Hebreu chegou até o tempo da vida terrena de Jesus de Nazaré pelos testemunhos, hoje, todo cristão cheio da Graça e do Espírito Santo, também deve dar seu testemunho como reconhecimento da presença do Deus de Jesus em sua vida.

Cristão consciente e iluminado (a) não fica tentando compreender a causa dos milagres, fica sim, extasiado (a) e cheio de paz e de amor com as maravilhas que eles promovem todos os dias.   

POR CRISTO, COM CRISTO, E EM CRISTO.  

Orlando Polidoro Junior.

Teólogo pela PUCPR