Chamado à Santidade

A proposta do Papa Francisco em sua Exortação Apostólica Gaudete et exsultate não é a santificação do cristão para transformá-lo em uma estátua

A Exortação é sobre a chamada à santidade no mundo atual, e a proposta sugere uma abertura de coração para receber a Graça, permitindo que Deus-Trino transforme o fiel num Bem-Aventurado (a), repleto de Amor para, em saída — mediante ações dignas como verdadeiro cristão (ã), espalhe caridade.

Entendamos caridade como amor pleno ao próximo, e em saída conforme a Evangelii gaudim n.46, não sair ansiosamente sem rumo, com zelo proselitista, mas sim, sem julgamentos, sair lançando olhares fraternos diretamente aos olhos de todos por onde passa, acolhendo-os como o pai do filho pródigo — sempre de portas abertas — cheio de alegria, paz e amor-incondicional. 

Este artigo propõe uma Teologia do povo [não populista], mas pastoral, e assim como o Evangelho de Jesus — benevolente e animado, pois mesmo com estas características virtuosas quase sempre enfrenta vários obstáculos até ser compreendido e manifestado em atitudes de santidade, principalmente entre as comunidades de fé.

Falar de Jesus e de seu Evangelho parece temas simples de serem absorvidos pelo Povo de Deus, mas desde aquele tempo […] até os nossos dias, cada vez mais sabemos não ser. Isso também é determinante em relação ao “processo de santidade”.

Falando a língua dos homens, como o povo entende o que é ser santo num mundo tão “avançado e liberal?”. São inúmeras interpretações, em especial as controvertidas de algumas denominações de cristãos protestantes, que enxergam os santos (as) somente transformados em estátuas — crendo nada representarem no Reino de Deus. Sem bom senso, não os reconhecem como seres humanos mais virtuosos, modelos excepcionais de vida cristã a ser seguido. Tudo bem que os santos da Igreja Católica transformados em ícones, “só se tornam santos reconhecidos pelos humanos/Igreja”, mas os são amplamente justificáveis e louváveis graças às suas obras abundantes de caridade.

Com alguns pré-conceitos existentes até mesmo pela forma de pensar de alguns cristãos Católicos, de que ser santo é somente para ser transformado em estátua, se torna bem mais difícil discernir de que ser santo (a) é ser semelhante a Jesus Cristo — é contemplar o mundo com seus olhos. Lendo sobre a vida dos santos (as), facilmente compreende-se que, pela Graça, caminhavam à Luz da Verdade da Vida (Jo 14,6).

À Luz do Mestre, o número 71 da Gaudete et exsultate é bem determinante: Felizes os mansos, porque possuirão a terra. “É uma frase forte, neste mundo que, desde o início, é um lugar de inimizade, onde se litiga por todo o lado, onde há ódio em toda a parte, onde constantemente classificamos os outros pelas suas ideias, os seus costumes e até a sua forma de falar ou vestir. Em suma, é o reino do orgulho e da vaidade, onde cada um se julga no direito de elevar-se acima dos outros. Embora pareça impossível, Jesus propõe outro estilo: a mansidão”.

A mansidão é gerada pela pessoa mansa, mas o que isso significa? Bondade, serenidade, doçura, tranquilidade, brandura, afabilidade, humanidade, etc. São inúmeros adjetivos qualitativos a darem razão ao que Jesus proclamou.

Fazendo valer um ditado popular: para bom entendedor esta louvável reflexão embasada nas palavras de Jesus basta para se compreender com mais sabedoria o que é ser santo aqui, agora, no Reino Terreno de Deus (Mt 12,28; Lc 4,18-21; Mt 21,31; Lc 17,20-21), esta última citação é muito clara: O Reino já está no meio de vós.

Como disse Karl Rahner [Sacerdote Jesuíta e influente teólogo], “a santidade em abstrato não existe”, corretíssimo! Entretanto, quando extraída do coração e transformada em ações de caridade, ela se materializa na vida do irmão em Jesus, tornando-se concreta; efetiva; muito real. “Cada santo é uma mensagem que o Espírito Santo extrai da riqueza de Jesus Cristo e dá ao seu povo” (GE n.21).

A Gaudete et exsultate é propositiva e não normativa, com isso, para vivenciar a proposta de santidade, assunto presente em toda a história do cristianismo, e algumas vezes atualizado pela Igreja como ocorreu com a Constituição Dogmática Lumen gentium do Concílio Vaticano II, é necessário conceber que na vida do cristão a alegria da santidade anunciada nos dois Testamentos bíblicos só atinge sua plenitude quando há um “comprometimento” com a mais valiosa essência do Reino: O amor anunciado por Jesus, O Cristo de Deus.

Para a maioria dos cristãos, a proposta de santidade no mundo de hoje parece estar longe da realidade de uma vida normal, visto que o mundo proporciona excessivas tentações. São forças opostas entre o Bem Maior do Amor do nosso Deus-Trindade, e os males do neocapitalismo, do hedonismo, do egocentrismo, do secularismo, do idolatrismo, do egoísmo e tantos outros “ismos” tão prejudiciais ao cristianismo, mas não só a ele, como a sociedade num todo.  

O Capítulo V, o último da Exortação, aborda o tema da luta espiritual, da vigilância e do discernimento. Nestas questões fundamentais à santidade, fortalecido — luto com toda força/ânimo pela Teologia centrada na consciência/capacidade espiritual do poder do Bem proporcionado pela Santíssima Trindade, e enfraqueço tentando imaginar o poder do mal que o “tal inimigo” possa provocar na vida do cristão ardente na fé [Maniqueísmo].

No final da oração que Jesus nos ensinou, onde rezamos, mas livrai-nos do mal, não significa o mal do inimigo, mas sim, o mal que o afastamento de Deus provoca. As parábolas de Jesus [3º discurso] em Mateus 13, 1-52 ilumina o campo aonde e como devemos semear o coração para colher bons frutos.

Esta batalha diária exige discernimento. “Um dom que é preciso pedir. Se o pedirmos com confiança ao Espírito Santo e, ao mesmo tempo, nos esforçarmos por cultivá-lo com a oração, a reflexão, a leitura e o bom conselho, poderemos certamente crescer nesta capacidade espiritual” (GE n.166).

Alegrai-vos e exultai à luz da Exortação

“A pessoa que, vendo as coisas como realmente estão, se deixa trespassar pela aflição e chora no seu coração, é capaz de alcançar as profundezas da vida e ser autenticamente feliz” (GE n.76).

O chamado à santidade é para todos [Predestinados ao Amor – Rm 8,29-30; Ef 1, 5.11], por isso, com o coração cheio do Amor da Santíssima Trindade, nossos testemunhos diários vão semeando frutos de santidade onde cada um se encontra (cf. GE n.14).

Por Cristo, com Cristo, e em Cristo.

Orlando Polidoro Júnior