Liturgia tradicional e Nova – 13/09/2020

15º Domingo depois de Pentecostes

Evangelho

Continuação ☩ do santo Evangelho segundo S. Lucas.
Lc 7:11-16
Naquele tempo, dirigiu-se Jesus para uma cidade chamada Naim, sendo acompanhado pelos discípulos e muito Povo. Tendo chegado próximo da porta da cidade, viu que levavam um morto daquela terra, filho único de sua mãe, que era viúva e ia acompanhada por muitas pessoas da cidade. Vendo, então, o Senhor tudo isto, encheu-se de Compaixão da mãe e disse-lhe: «Não chores». Depois, aproximando-se do defunto, tocou no esquife (pois aqueles que o levavam haviam parado) e disse: «Jovem, ordeno-te eu, levanta-te!». E no mesmo instante se ergueu e sentou o que estava morto, começando a falar! Então Jesus entregou-o a sua mãe. E toda a multidão ficou aterrada; e glorificavam Deus, dizendo: «Apareceu entre nós um grande Profeta: Deus visitou o seu povo».

Defunctus efferebatur, filius unicus matris suae – “Levavam à sepultura um defunto, filho único de sua mãe” (Lc 7, 12)

Sumário. Que verdade tão importante nos é lembrada pelo Evangelho de hoje! O filho da viúva de Naim era novo, herdeiro único de seu pai, consolação única de sua mãe, amado de seus concidadãos, que por isso acompanhavam o cortejo fúnebre. Provavelmente não pensara que a morte viria surpreendê-lo em tais circunstâncias; mas, assim mesmo colheu-o. Nada, pois, mais certo do que a morte, mas nada mais incerto do que a hora da morte. Ah! Se pensássemos muitas vezes nesta grande máxima, não pecaríamos nunca, e estaríamos sempre preparados para morrer.

I. Refere São Lucas que “Jesus ia para uma cidade chamada Naim; e iam com ele os seus discípulos e uma grande multidão de povo. E quando chegou perto da porta da cidade, eis que levavam um defunto a sepultar, filho único de sua mãe, que já era viúva, e vinha com ela muita gente da cidade.” Antes de prosseguirmos, meu irmão, reflitamos nesta primeira parte da narração evangélica, e lembremo-nos da morte.

É fora de dúvida que devemos morrer. Cremos nesta verdade, não porque é um ponto da fé, mas porque a vemos também com nossos olhos, pois que cada dia se repete o fato do Evangelho: Ecce defunctus efferebatur – “Um defunto é levado à sepultura”. Se alguém se quisesse iludir pensando que não há de morrer, não seria tido por herege, mas sim por louco, que nega a evidência. – É, pois, certo que havemos de morrer; contra cada um de nós já foi lançada a sentença inapelável: Statutum est hominibus semel mori (1) – “Esta decretado que os homens morram uma só vez.” Mas onde é que morreremos?… Como?… Quando? Ninguém o sabe. “Nada mais certo do que a morte”, diz o Idiota, “e ao mesmo tempo, nada mais incerto do que a hora da morte.”

O filho da viúva de Naim era novo, na flor dos anos, herdeiro único de seu pai; única consolação de sua mãe; amado de seus concidadãos que por isso acompanhavam o cortejo fúnebre. Provavelmente não pensara que a morte o havia de surpreender em tais circunstâncias; mas apesar disso colheu-o. Tal será também a nossa sorte; quem no-lo diz é Jesus Cristo, a verdade mesma: Estote parati; quia qua hora non putatis, Filius hominis veniet (2) – “Estai preparados; porque à hora que não cuidais, o Filho do homem virá.”

II. O Evangelho continua a narração dizendo que “o Senhor, vendo a viúva, e movido de compaixão para com ela, lhe disse. Não chores. E, chegando ao esquife, acrescentou: Moço, eu te ordeno, levanta-te. E sentou-se o que havia estado morto, e começou a falar.” Deste modo Jesus Cristo aproveitou-se da morte daquele moço para fazer um grande milagre, que consolou uma mãe extremamente aflita e confirmou no bem os assistentes, que glorificavam a Deus e diziam: “Um grande profeta levantou-se entre nós; e Deus visitou o seu povo.”

É o que o Senhor continua ainda sempre a fazer nas almas por Ele remidas pela meditação sobre a morte. Serve-se desta lembrança para consolar a Igreja, nossa mãe, pela ressurreição espiritual de tantos pecadores, seus filhos; e, depois de os ressuscitar, serve-se ainda da mesma consideração para os fazer perseverar no bem, enchendo-os de um temor salutar. – Procura, tu também, ter sempre diante dos olhos o pensamento da morte. Fazendo isto, se és pecador, ressuscitarás depressa à vida da graça; se, como espero, és justo, o Espírito Santo te assegura que nunca mais tornarás a cair no pecado: Memorare novíssima tua, et in aeternum non peccabis (3) – “Lembra-te de teus novíssimos, e jamais pecarás.”

Ó meu Deus! Graças Vos dou pela luz que agora me comunicais. Já basta de anos perdidos! Quero empregar todo o resto de minha vida em me preparar para a morte, chorando as ofensas que Vos fiz, e reparando o tempo passado por uma dedicação mais fiel a vosso serviço. Ajudai-me com a vossa santa graça. “Purificai-me, ó Senhor, fortalecei-me com a vossa continua piedade; e, porque sem Vós nada pode subsistir, sustentai-me sempre com os vossos dons.” (4) – † Doce Coração de Maria, sede minha salvação.

Referências:

(1) Hb 9, 27
(2) Lc 12, 40
(3) Eclo 7, 40
(4) Or. Dom. curr.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 76-78)

Liturgia Nova

24º Domingo do Tempo Comum – Ano A

LEITURA I – Sir 27,33-28,9

O livro de Ben Sira (também chamado “Eclesiástico”), de onde foi extraída a primeira leitura deste domingo, é um livro sapiencial que, como todos os livros sapienciais, pretende apresentar uma reflexão de carácter prático sobre a arte de bem viver e de ser feliz.
Estamos no início do séc. II a.C., numa época em que o helenismo tinha começado o seu trabalho pernicioso, no sentido de minar a cultura e os valores tradicionais de Israel. Jesus Ben Sira, o autor deste livro, está preocupado com a degradação dos valores tradicionais do seu Povo e as cedências que, sobretudo os mais jovens, vão fazendo à cultura grega. A “fé dos pais” corre riscos de desaparecer ou, ao menos, de perder a sua identidade.
Jesus Ben Sira procura, então, apresentar uma síntese da religião tradicional e da sabedoria de Israel, sublinhando a grandeza dos valores judaicos e demonstrando que a cultura judaica não fica a dever nada à brilhante cultura grega. Por essa razão, escreveu este compêndio de “sabedoria”. Nele, tenta demonstrar aos seus compatriotas que Israel possuía na “Torah”, revelada por Deus, a verdadeira “sabedoria” – uma “sabedoria” muito superior à “sabedoria” grega.
O texto que a liturgia de hoje nos propõe integra uma secção (cf. Sir 24,1-42,14) onde Jesus Ben Sira procura demonstrar que a “sabedoria” – criatura de Deus, oferecida a todos os homens piedosos (cf. Sir 1,1-23,38) – tem um campo especial de acção em Israel, o Povo eleito de Deus. Esta secção não tem uma estrutura clara e coerente: os temas vão-se sucedendo, aparentemente sem uma ordem lógica. Dominam, aí, as “máximas” destinadas a ensinar os comportamentos que se devem assumir nas relações sociais.
Uma nota de carácter prático: o nosso texto aparece, na maior parte das versões recentes da Bíblia, numerado como 27,30-28,7 e não como 27,33-28,9. Aqui, no entanto, conservamos a numeração 27,33-28,9 – que é a apresentada no “Leccionário Dominical”. Esta discrepância resulta do facto de o texto apresentado pelo “Leccionário” seguir uma versão latina, mais longa do que a versão grega que serve de base às traduções mais recentes do Livro de Ben Sira.

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 102 (103)

Refrão: O Senhor é clemente e compassivo,
paciente e cheio de bondade.

LEITURA II – Rom 14,7-9

Na segunda parte da Carta aos Romanos (já o vimos nos domingos anteriores), Paulo preocupa-se em apresentar aos cristãos de Roma (e aos cristãos de todos os lugares e tempos) um conjunto de atitudes e de valores que devem marcar a vida pessoal, social e eclesial daqueles que Deus chama à salvação. A segunda leitura deste domingo situa-nos neste contexto e apresenta-nos mais alguns dados sobre esta questão.
O nosso texto faz parte de uma perícopa (cf. Rom 14,1-12) em que Paulo dá algumas indicações acerca da conduta a ter face aos outros membros da comunidade, particularmente face àqueles que têm perspectivas diferentes da fé e do caminho cristão.
Paulo considera que existem dois tipos de crentes na comunidade cristã de Roma: os “fortes” e os “débeis”. Estas designações não parecem referir-se, primordialmente, à classe social (“ricos” e “pobres”) ou à origem religiosa (“pagano-cristãos” e “judeo-cristãos”) desses crentes, mas a atitudes diversas quanto à fé… Os “fortes” (na linguagem de hoje, poderíamos caracterizá-los como “progressistas”) são aqueles que já se libertaram decisivamente da escravidão da Lei e dos ritos e consideram que só os valores do Evangelho são decisivos no caminho da fé. Os “fracos” (na linguagem de hoje poderíamos chamar-lhes “tradicionalistas”) são aqueles que fazem finca-pé nas leis, nos ritos e nas tradições antigas e ficam escandalizados pelo facto de esses valores não serem assumidos por toda a gente.
Muito provavelmente, estes dois grupos viviam em confronto, provocando uma certa divisão na comunidade. Paulo não aceita atitudes de intolerância ou de desprezo pelos irmãos, venham elas de onde vieram. Na verdade, o pensamento de Paulo aproxima-o mais dos “fortes”; mas ele sabe muito bem que mais importante do que as divergências é o respeito pelo irmão e a construção da fraternidade. Os “fortes” não podem desprezar aqueles que não pensam como eles; e os “débeis” não têm o direito de julgar ou de catalogar aqueles que têm, quanto à fé, uma outra perspectiva.
É precisamente neste contexto que Paulo encaixa os três versículos que constituem a segunda leitura deste domingo.

EVANGELHO – Mt 18,21-35

Continuamos a ler o “discurso eclesial”, que preenche todo o capítulo 18 do Evangelho segundo Mateus. Este “discurso” tem como ponto de partida algumas “instruções” apresentadas por Marcos sobre a vida comunitária (cf. Mc 9,33-37.42-47), mas que Mateus ampliou de forma significativa. Os destinatários do discurso são os discípulos (na realidade Mateus pretende, sobretudo, atingir os membros dessa comunidade cristã a quem este Evangelho se destina).
Por detrás do texto que nos é hoje proposto, podemos entrever uma comunidade onde as tensões e os conflitos degeneram em ofensas pessoais e que tem muita dificuldade em perdoar.

Fonte: dehonianos.org/