Liturgia Tridentina e Ordinária – 20/09/2020

16º Domingo depois de Pentecostes

Ecce homo quidam hydropicus erat ante illum – “Eis que diante dele estava um hidrópico”

Evangelho

Continuação ☩ do santo Evangelho segundo S. Lucas.
Lc 14, 1-11
Naquele tempo, em um sábado, entrou Jesus em casa de um dos principais fariseus, para aí tomar uma refeição, observando os fariseus tudo o que Ele fazia, Estava diante dele um homem hidrópico, Então Jesus tomou a palavra e perguntou aos doutores da Lei e aos fariseus: «É permitido curar os enfermos ao sábado?». Eles se calaram. E Jesus tocou neste homem, curou-o e mandou-o embora. Depois, dirigindo-se aos outros, continuou: «Qual é de vós aquele que, se o seu boi ou o seu jumento cai em um poço no dia de sábado, o não retira logo, mesmo nesse dia?». Eles não puderam responder-Lhe. Ainda Jesus, notando que os convivas escolhiam os principais lugares à mesa, disse: «Quando vos convidarem para assistirdes às bodas, não procureis o primeiro lugar, pois pode acontecer que, tendo sido convidada outra pessoa de maior dignidade do que vós, aquele que vos convidou diga: «Cedei o vosso lugar a este convidado». E, então, tereis de ir, cheios de vergonha, ocupar o último lugar. Pelo contrário, ide ocupar o último lugar, de modo que aquele que vos houver convidado diga: «Amigo, vinde para lugar mais digno», o que será motivo de glória para vós, diante dos outros convivas. Aquele que se exaltar será humilhado; e aquele que se humilhar será exaltado».

Sumário. O hidrópico, de quem fala o Evangelho, é figura de um cristão que se deixa dominar por uma paixão qualquer e particularmente pelo desejo das honras. Com efeito, o soberbo nunca acha a paz, porque nunca se vê tratado conforme o vão conceito que faz de si mesmo. Se por desgraça nos achamos infectados desta hidropisia espiritual, representemo-nos Nosso Senhor, e contemplemo-Lo reduzido como foi por nosso amor a ser o último dos homens; e envergonhados da nossa ambição, digamos-lhe: Ó Jesus manso e humilde de Coração, fazei o meu coração semelhante ao vosso.

I. Refere São Lucas que “entrando Jesus num Sábado em casa de um dos principais fariseus, a tomar a sua refeição, eles O estavam ali observando. E eis que diante d’Ele estava um homem hidrópico. E Jesus dirigindo-se aos doutores da lei e aos fariseus, disse-lhes: É permitido fazer cura aos Sábados? Mas eles ficaram calados. Então Jesus, tomando a si o homem, o curou e o mandou embora – Sanavit eum, ac dimisit.”

Sob a figura daquele pobre hidrópico, os santos intérpretes veem a imagem do homem que se deixa dominar por uma paixão qualquer e particularmente pelo orgulho e pelo desejo imoderado das honras e das grandezas. E com razão; pois, assim como o doente de hidropisia é devorado por tamanha sede, que, quanto mais bebe, tanto mais fica assedentado; assim o soberbo nunca tem paz, porque nunca chega a ver-se tratado conforme o vão conceito que forma de si próprio. Até entre as mesmas honras não está contente, porque sempre tem os olhos fitos nos que são mais honrados. – Sempre faltará ao orgulhoso ao menos alguma honra ambicionada, e esta falta atormentá-lo-á mais do que o consolam todas as outras dignidades obtidas. Quanto não era honrado Aman no palácio de Assuero, assentando-se até à mesa do rei! Mas porque Mardocheo não o quis saudar, disse que se julgava infeliz (1).

Meu irmão, examina a tua consciência, e, se achares que, no passado, também tu andaste atrás do vapor das honras vãs, para remédio desta tua enfermidade espiritual, imita o hidrópico do Evangelho e põe-te logo na presença do Senhor. Contempla como Jesus, posto que fosse o filho de Deus, por teu amor se aniquilou, tomando a forma de servo (2), quis por teu amor fazer-se o último dos homens, o mais desprezado e ultrajado (3). E envergonhado da tua ambição, dize-Lhe com amor: † Ó Jesus, manso e humilde de Coração, fazei o meu coração semelhante ao vosso.

II. Escreve São Jerônimo que a glória verdadeira é semelhante à sombra, que segue a quem dela foge, e foge de quem a quer prender: Appetitores suos deserens, appetit contemptores. É isto exatamente o que Jesus Cristo quis ensinar no Evangelho de hoje, quando, depois de curar o hidrópico, e observando que os fariseus escolhiam os primeiros lugares à mesa, lhes disse esta parábola: “Quando fores convidado a algumas bodas, não te assentes no primeiro lugar;… mais vai tomar o último lugar; para que, quando vier o que te convidou, te diga: Amigo, sobe para cima. Então te servirá isto de glória na presença de todos os convidados: porque todo o que se exalta será humilhado, e todo o que se humilha será exaltado – Omnis qui se exaltat humiliabitur, et qui se humiliat exaltabitur.

Humílimo Jesus, como é que em mim há tanto orgulho depois de tantos pecados? Vejo que as minhas faltas, sobre me fazerem tão ingrato para convosco, fizeram-me ainda orgulhoso. Ne proicias me a facie tua (4) – “Não me rejeiteis de diante de vossa presença, conforme merecia”. Tende piedade de mim e fazei-me conhecer o que sou e o que mereço. Em vez de obter honras e dignidades, mereceria estar no inferno, onde já estão ardendo tantos outros por menos pecados do que foram os meus. Vós, porém, ó meu Jesus, me ofereceis o perdão, se eu o desejo. Sim, desejo-o. Meu Redentor, perdoai-me, já que de todo o coração detesto as minhas ambições e orgulho, que não somente me fizeram desprezar o próximo, mas também a Vós, meu soberano Bem.

Dir-vos-ei com Santa Catarina de Gênova: Meu Deus, nada mais de pecado, nada mais de pecado! Já basta de ofensas, não quero mais abusar de vossa paciência. De hoje em diante quero amar-Vos de todo coração e, para Vos agradar, quero abraçar com humildade todos os desprezos que me sejam feitos. Já prevejo que o inferno aumentará tanto mais tentações, quanto mais me vir desejoso de ser todo vosso. Vós, porém, meu Senhor, ajudai-me a ser-Vos fiel. “Fazei com que a vossa graça me previna sempre, me acompanhe e me afervore na continua prática das boas obras.”

† Doce Coração de Maria, sede minha salvação.

Referências:

(1) Est 5, 13
(2) Fl 2, 7
(3) Is 53, 3
(4) Sl 50, 13

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 95-97)

Liturgia Ordinária

25º Domingo do Tempo Comum – Ano A

LEITURA I – Is 55,6-9

O Deutero-Isaías, autor deste texto, é um profeta anónimo da escola de Isaías, que cumpriu a sua missão profética entre os exilados da Babilónia, procurando consolar e manter acesa a esperança no meio de um povo amargurado, desiludido e decepcionado. Os capítulos que recolhem a sua mensagem (Is 40-55) chamam-se, por isso, “Livro da Consolação”.
Estes quatro versículos que a primeira leitura de hoje nos propõe aparecem no final do “Livro da Consolação”. Aproxima-se a libertação e, para muitos exilados, está perto o momento do regresso à Terra Prometida. Depois de exortar os exilados a cumprir um novo êxodo e de lhes garantir que, em Judá, vão sentar-se à mesa do banquete que Jahwéh quer oferecer ao seu Povo (cf. Is 55,1-3), o profeta lança-lhes agora um outro repto…
O tempo do Exílio foi um tempo de angústia e de sofrimento, mas também um tempo de amadurecimento e de graça. Aí, Israel tomou consciência das suas falhas e infidelidades, e descobriu que o viver longe de Deus não conduz à vida e à felicidade; por outro lado, o tempo de Exílio ajudou Israel a purificar a sua noção de Deus, da Aliança, do culto e até do significado de ser Povo de Deus.
O Deutero-Isaías – neste momento em que se abrem novos horizontes – convida os seus concidadãos a percorrerem esse caminho de conversão e de redescoberta de Deus que a experiência do Exílio lhes revelou. O Povo está prestes a pôr-se a caminho em direcção à Terra Prometida; esse “caminho” não é uma simples deslocação geográfica mas é, sobretudo, um “caminho” espiritual de reencontro com o Senhor. Deixar a terra da escravidão e voltar à terra da liberdade deve significar, para Israel, uma redescoberta dos esquemas de Deus e um esforço sério para viver na fidelidade dinâmica aos mandamentos de Jahwéh.

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 144 (145)

Refrão: O Senhor está perto de quantos O invocam.

LEITURA II – Filip 1,20c-24.27a

Filipos, cidade situada ao norte da Grécia, foi a primeira cidade europeia evangelizada por Paulo. Era uma cidade próspera, com uma população constituída maioritariamente por veteranos romanos do exército. Organizada à maneira de Roma, estava fora da jurisdição dos governantes das províncias locais e dependia directamente do imperador. Gozava, por isso, dos mesmos privilégios das cidades de Itália.
A comunidade cristã, fundada por Paulo, Silas e Timóteo no Verão do ano 49, era uma comunidade entusiasta, generosa e comprometida, sempre atenta às necessidades de Paulo e do resto da Igreja (como no caso da colecta em favor da Igreja de Jerusalém – cf. 2 Cor 8,1-5). Paulo nutria pelos “filhos” de Filipos um afecto especial.
No momento em que escreve aos Filipenses, Paulo está na prisão (em Éfeso?). Dos Filipenses recebeu dinheiro e o envio de Epafrodito (um membro da comunidade), encarregado de ajudar Paulo em tudo o que fosse necessário. Enviando Epafrodito de volta a Filipos, Paulo confia-lhe uma carta para a comunidade. É uma carta afectuosa, onde Paulo agradece aos Filipenses a sua preocupação, a sua solicitude e o seu amor. Nela, Paulo agradece, dá notícias, informa a comunidade sobre a sua própria sorte e exorta os Filipenses à fidelidade ao Evangelho.
O texto que nos é hoje proposto faz parte de uma perícopa (cf. Flp 1,12-26), na qual Paulo fala aos Filipenses de si próprio, da sua situação, das suas preocupações e esperanças. Paulo está consciente de que corre riscos de vida; mas está sereno, alegre e confiante porque a única coisa que lhe interessa é Cristo e o seu Evangelho.

EVANGELHO – Mt 20,1-16a

No texto que nos é proposto, Jesus continua a instruir os discípulos, a fim de que eles compreendam a realidade do Reino e, após a partida de Jesus, a testemunhem. Trata-se de mais uma “parábola do Reino”.
O quadro que a parábola nos apresenta reflecte bastante bem a realidade social e económica dos tempos de Jesus. A Galileia estava cheia de camponeses que, por causa da pressão fiscal ou de anos contínuos de más colheitas, tinham perdido as terras que pertenciam à sua família. Para sobreviver, esses camponeses sem terra alugavam a sua força de trabalho. Juntavam-se na praça da cidade e esperavam que os grandes latifundiários os contratassem para trabalhar nos seus campos ou nas suas vinhas. Normalmente, cada “patrão” tinha os seus “clientes” – isto é, homens em quem ele confiava e a quem contratava regularmente. Naturalmente, esses trabalhadores “de confiança” recebiam um tratamento de favor. Esse tratamento de favor implicava, nomeadamente, que esses “clientes” fossem sempre os primeiros a ser contratados, a fim de que pudessem ganhar uma “jorna” completa (um “denário”, que era o pagamento diário habitual de um trabalhador não especializado).

Fonte: Dehonianos.org