Liturgia Tridentina e Ordinária – 04/10/2020

18º Domingo depois de Pentecostes

Confide, fili: remittuntur tibi peccata tua – “Filho, tem confiança, perdoados te são os pecados” (Mt 9, 2)

Evangelho

Continuação ☩ do santo Evangelho segundo S. Mateus.
Mt 9, 1-8
Naquele tempo, subindo Jesus para uma barca, passou o lago e foi para a cidade de Cafarnaum, onde Lhe apresentaram um paralítico, deitado num leito. Vendo Jesus a fé de todos, disse ao paralítico: «Tem confiança, meu filho, os teus pecados ficam-te perdoados». Logo alguns dos escribas disseram intimamente: «Este homem blasfema!». Jesus, conhecendo os seus pensamentos, disse-lhes: «Para que cogitais mal nos vossos corações? Qual é mais fácil dizer: Os teus pecados ficam-te perdoados, ou levanta-te e caminha? Pois, para que conheçais que o Filho do homem tem na terra poder de perdoar os pecados, levanta-te (continuou Ele, dirigindo-se ao paralítico), leva a tua cama e vai para tua casal». E o paralítico levantou-se e foi para casa. Vendo as turbas do povo este acontecimento, ficaram cheias de temor e deram glória a Deus, que havia dado tal poder aos homens!

Sumário. De ordinário, a causa de todas as tribulações, e especialmente das enfermidades, são os pecados. Eis porque o Senhor, como refere o Evangelho, antes de restituir ao paralítico a saúde do corpo, lhe restituiu a da alma, concedendo-lhe o perdão dos pecados. Portanto, se quisermos que Deus nos livre das aflições que nos oprimem, arranquemos primeiro a raiz, isto é, o pecado. Aconselhemo-lo igualmente a nosso próximo em suas tribulações.

I. Quando alguém ofende a Deus, provoca todas as criaturas a castigarem-no, e especialmente aqueles de que abusa para ofender o Criador. Sucede então o mesmo, diz Santo Anselmo, que quando um escravo se revolta contra seu senhor: excita a indignação não só de seu senhor, como também de toda a família. – Deus, porém, sendo um Senhor de infinita misericórdia, contém as criaturas afim de que não castiguem o réu; mas quando vê que este não faz caso das ameaças, serve-se delas então para se desafrontar. De modo que, de ordinário, a causa de todas as tribulações e especialmente das enfermidades corporais, são os pecados: Qui delinquit, incidet in manus medici (1) — “Aquele que peca, virá a cair nas mãos do médico”.

Esta verdade nos é revelada com bastante clareza no fato do Evangelho de hoje. Um paralítico pediu a Jesus Cristo a saúde, e Jesus, antes de curar corporalmente, curou-lhe a alma dizendo:

“Filho, tem confiança; perdoados te são os pecados.”

Porque é que Jesus procedeu assim? Responde Santo Tomás: Porque o Senhor, como bom médico, quis primeiro arrancar a causa da enfermidade que eram os pecados, e depois tirar a própria enfermidade, que era efeito deles. É este também o motivo porque o Senhor, depois de curar aquele outro enfermo na piscina de Bethsaida, o qual estivera doente por trinta e oito anos, o exortou a não pecar mais, afim de que não lhe acontecesse coisa pior. Ne deterius tibi aliquid contingat. (2)

Escuta, pois, meu irmão, o belo conselho que te dá o Espírito Santo, para quando tu também estiveres oprimido pelas tribulações:

“Filho, em tua enfermidade (e o mesmo se diga de qualquer tribulação) faze oração ao Senhor e Ele te curará. Aparta-te do pecado, endireita as tuas ações, purifica o teu coração de todo o delito,… e depois dá lugar ao médico.” (3)

II. A narração evangélica mostra-nos também um belo exemplo de caridade, digno de ser imitado. O paralítico, deitado no seu leito, não se apresentou por si mesmo ao Senhor; mas foi apresentado por outros com bastante incômodo. Porque, segundo observa São Marcos, como não pudessem entrar pela porta na casa onde estava Jesus, descobriram parte do teto, e, fazendo uma abertura, arrearam o leito em que o paralítico jazia até perto de Jesus (4). E o Redentor sentiu-se impelido a curá-lo, não tanto pela compaixão para com o enfermo, como pela fé dos que o tinham trazido: videns Jesus fidem illorum — “vendo-lhes a fé”.

Eis o que nós também devemos fazer; empreguemos todos os meios para reconduzir a Jesus as almas enfermas dos pecadores, afim de que sejam curadas; e se não estiver ao nosso alcance fazer mais, demos-lhes, ao menos, bom exemplo e roguemos por eles. — Desta maneira praticaremos um belo ato de caridade, não somente para com o próximo, como também para conosco; porquanto, na expressão de Santo Agostinho, neste mundo o Senhor castiga muitas vezes os bons com os maus, porque se descuidam de impedir e de corrigir os pecados dos outros.

Ó meu Jesus, saúde dos enfermos, conforto dos que sofrem, tende piedade de mim! Renovai, suplico-Vos, os prodígios que outrora fizestes a favor de Israel, e pela vossa onipotência, livrai-me de todas as enfermidades, de todas as tribulações que com justiça me afligem em castigo das ofensas que Vos tenho feito. Se Vós, porém, ó meu Senhor, dispondes de outras formas, eu Vô-las ofereço como sacrifício, em união e agradecimento daquele que por mim fizestes sobre a cruz, para desconto de meus pecados e para a conversão dos pecadores. Dignai-Vos de as aceitar, e como recompensa, infundi em meu coração a virtude da paciência, e “conduzi-o sempre pela ação da vossa misericórdia; porque sem Vós a Vós não podemos agradar”. (5) † Doce Coração de Maria, sede minha salvação.

Referências:

(1) Eclo 38, 15
(2) Jo 5, 14
(3) Eclo 38, 9ss
(4) Mc 2, 4
(5) Or. Dom. curr.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 134-136)

Rito Ordinário

27º Domingo do Tempo Comum – Ano A

LEITURA I – Is 5,1-7

Isaías, filho de Amós, exerceu o seu ministério profético em Jerusalém, no reino de Judá, durante a segunda metade do séc. VIII a.C. (de acordo com os seus oráculos, o profeta foi chamado por Deus ao ministério profético por volta de 740-739 a.C.; e os seus oráculos vão até perto de 700 a.C.). A sua pregação abarca, portanto, um arco de tempo relativamente longo e abrange vários reinados.
Isaías – como os outros profetas – não fala de realidades abstractas e intangíveis. A sua pregação refere-se a acontecimentos concretos e toca a realidade da vida, dos problemas, das inquietações, das esperanças dos homens do seu tempo. Para perceber a sua mensagem temos, portanto, de situá-la na época e na realidade histórica que o profeta conhece e sobre a qual é chamado por Deus a pronunciar-se.
A primeira fase do ministério de Isaías desenrola-se durante o reinado de Jotam (740-734 a.C.). É uma época de relativa tranquilidade política, em que Judá se mantém afastado da cena internacional e das jogadas políticas das super-potências. Tudo parece correr bem, num clima de paz generalizada.
No entanto, o olhar crítico do profeta detecta uma realidade distinta. Internamente, a sociedade de Judá está marcada por grandes injustiças e arbitrariedades… Os poderosos exploram os mais débeis, os juízes deixam-se corromper, os latifundiários deixam-se dominar pela cobiça e inventam esquemas legais para se apropriar dos bens dos mais pobres, os governantes oprimem os súbditos, as senhoras finas de Jerusalém vivem no luxo e na futilidade, num desrespeito absoluto pelas necessidades e carências dos mais pobres.
Em termos religiosos, o culto floresce numa abundância inaudita de práticas de piedade e de abundantes e solenes manifestações religiosas; no entanto, todo esse fausto cultual é incoerente e mentiroso, pois não resulta de uma verdadeira adesão a Jahwéh, mas de uma tentativa de acalmar as consciências e de “comprar” Deus.
Para o profeta, Jerusalém deixou de ser a esposa fiel, para converter-se numa prostituta (cf. Is 1,21-26); ou, dito de outra forma, a “vinha” cuidada por Deus só produz frutos amargos e não os frutos bons (de justiça e de amor) pedidos a quem vive envolvido no ambiente da Aliança.
A mensagem de Isaías neste período encontra-se nos capítulos 1-5 do seu livro. O texto que hoje nos é proposto é um dos textos mais emblemáticos deste período.
O “cântico da vinha” poderia ser, inicialmente, um “cântico de vindima” ou um “cântico de trabalho”, que um poeta popular entoa diante do seu círculo de amigos ou de companheiros de trabalho. Mas, como acontece tantas vezes com as formas de expressão da cultura popular, rapidamente as palavras adquirem um duplo sentido e passam a evocar outra realidade.
Na cultura judaica, a “vinha” é um símbolo do amor (cf. Cant 1,6.14; 2,15; 8,12). O “cântico da vinha” passa então a ser, na boca do poeta popular, uma “cantiga de amor”, que descreve os esforços do jovem apaixonado para conquistar a sua amada.
Isaías vai utilizar esta “cantiga de amor” como recurso para transmitir a mensagem que Deus lhe confiou.

SALMO RESPONSORIAL – Salmo 79 (80)

Refrão: A vinha do Senhor é a casa de Israel.

LEITURA II – Filip 4,6-9

Continuamos a ler a carta enviada pelo apóstolo Paulo aos cristãos da cidade grega de Filipos. Quando escreve aos seus amigos filipenses, Paulo está na prisão (em Éfeso?), sem saber o que o futuro imediato lhe reserva. Entretanto, recebeu ajuda dos filipenses (uma soma em dinheiro e a visita de Epafrodito, um membro da comunidade, encarregado pelos filipenses de cuidar de Paulo e de prover às suas necessidades) e está sensibilizado pela bondade e pela preocupação que os filipenses manifestam para com a sua pessoa.
A Carta aos Filipenses é, sobretudo, uma carta dirigida a amigos muito queridos, na qual Paulo manifesta o seu apreço por essa comunidade que o ama, que o ajuda e que se preocupa com ele. Enviando de volta Epafrodito – que estivera gravemente doente – Paulo agradece, dá notícias, informa a comunidade sobre a sua própria sorte e exorta os filipenses à fidelidade ao Evangelho.
O texto que hoje nos é proposto pertence à parte final da carta. Apresenta um conjunto de recomendações, destinadas a recordar aos filipenses algumas obrigações que resultam do seu compromisso com Cristo e com o Evangelho.

EVANGELHO – Mt 21,33-43

Estamos em Jerusalém, pouco tempo após a entrada triunfal de Jesus na cidade (cf. Mt 21,1-11). De hora para hora, cresce a tensão entre Jesus e os seus adversários. Os líderes judaicos pressionam Jesus, num esquema que apresenta foros de processo organizado. Adivinha-se, no horizonte próximo de Jesus, a prisão, o julgamento, a condenação à morte. Jesus está plenamente consciente do destino que lhe está reservado, mas enfrenta os dirigentes e condena implacavelmente a sua recusa em acolher o Reino.
O texto que nos é proposto faz parte de um bloco de três parábolas (cf. Mt 21,28-32. 33-43; 22,1-14), destinadas a ilustrar a recusa de Israel em aceitar o projecto de salvação que Deus oferece aos homens através de Jesus. Com elas, Jesus convida os seus opositores – os líderes religiosos judaicos – a reconhecerem que se fecharam num esquema de auto-suficiência, de orgulho, de arrogância, de preconceitos, que não os deixa abrir o coração e a vida aos desafios de Deus. O nosso texto é a segunda dessas três parábolas.
A história que nos vai ser narrada compreende-se melhor à luz da situação sócio-económica da Galileia do tempo de Jesus… A terra estava, quase sempre, nas mãos de grandes latifundiários que viviam nas cidades. Esses latifundiários utilizavam vários sistemas para a exploração das suas terras; mas uma das formas preferidas de exploração da terra (precisamente porque, para o latifundiário não implicava muito trabalho) consistia em arrendar as várias parcelas do latifúndio, em troca de uma parte substancial dos produtos recolhidos. Os que arrendavam as terras eram, geralmente, camponeses que tinham perdido as suas próprias terras devido à pressão fiscal ou às más colheitas. Estes camponeses viviam numa situação periclitante: depois de descontados os gastos com a exploração, os impostos pagos e a parte que pertencia ao latifundiário, mal ficavam com o indispensável para se sustentar a si e à sua família. Em anos agrícolas maus, este esquema significava a miséria absoluta… Este quadro provocava conflitos sociais frequentes e o aparecimento de movimentos campesinos que lutavam contra os latifundiários ou contra a carga excessiva de impostos.
É neste cenário que Jesus vai colocar a parábola que hoje nos apresenta.

Fonte: Dehonianos.org