6º Domingo após a Epifania 15/11/2020

Epístola

Lição da Ep.ª do B. Ap.º Paulo aos Tessalonicenses
1 Ts 1, 2-10
Meus irmãos: Continuamente damos graças a Deus por vós todos, lembrando-nos de vós sem cessar nas nossas orações, e recordando diante de Deus, nosso Pai, as obras da vossa fé, os trabalhos da vossa caridade e a constância da vossa esperança em Cristo. Sabemos, irmãos amados de Deus, que fostes escolhidos; pois o nosso Evangelho vos não foi pregado somente com palavras, mas também com milagres, pelo poder do Espírito Santo e com a plenitude de muitos dons. Não ignorais, também, como temos procedido no meio de vós, por causa da vossa salvação. E assim vos fizestes nossos imitadores, e do Senhor, recebendo a sua palavra no meio de muitas tribulações com a alegria do Espírito Santo, de sorte que vos tornastes modelo para todos os fiéis da Macedónia e da Acaia. Pois não só fostes a causa de que a palavra do Senhor se transmitisse na Macedónia e na Acaia, mas também a vossa fé em Deus fez-se conhecer em todo o lugar; e tanto que nem é necessário que falemos em tal. Todos esses povos apregoam o êxito que alcançámos junto de vós, e como vos convertestes, abandonando os ídolos para servir a Deus vivo e verdadeiro, e para esperar do céu o seu Filho Jesus, que ressuscitou dos mortos e nos livrou da ira futura.

Evangelho

Continuação ☩ do santo Evangelho segundo S. Mateus
Mt 13, 31-35
Naquele tempo Jesus disse às turbas: «O reino dos céus é semelhante a um grão de mostarda que um homem tomou e semeou no seu campo, a qual é a mais pequena de todas as sementes, mas, quando cresce, torna-se na maior de todas as plantas, e forma-se uma árvore de tal modo grande que as aves do céu vêm pousar nos seus ramos», Depois, ainda Jesus lhes disse: «O reino dos céus é semelhante ao fermento que uma mulher toma e mistura em três medidas de farinha, até que todas estejam lêvedas». Tudo isto disse Jesus em parábolas; e sem parábolas não falava, para que se cumprisse o que fora dito pelo Profeta: «Abrirei a minha boca em parábolas e revelarei muitas coisas que estão ocultas desde a criação do mundo».

REFLEXÃO

Simile est regnum coelorum grano sinapis, quod accipiens homo seminavit in agro suo – “O reino dos céus é semelhante a um grão de mostarda que um homem tomou e semeou no seu campo” (Mt 13, 31)

Sumário. No Evangelho de hoje a Igreja Católica é comparada a um grão de mostarda; porque, posto que pequena na sua origem, em breve se dilatou de tal modo, que todas as nações se puseram debaixo da sua proteção. Já que temos a ventura de pertencer a esta Igreja, demos graças por isso a Deus. Se, porém, desejamos que a fé nos salve, meditemos frequentemente nas máximas salutares da fé e façamos por não sermos do número daqueles que, vivendo no pecado ou na tibieza, são membros mortos ou moribundos.

I. O divino Redentor compara o reino dos céus, isto é, a sua Igreja, a um grão de mostarda que um homem tomou e semeou no seu campo. E com razão; pois, assim como a mostarda é a menor das sementes, assim a Igreja de Jesus Cristo foi na sua origem muito pequena e desprezível aos olhos dos homens.

— Pequena e desprezível em seu fundador; que, posto que fosse Deus, quis passar sua vida na obscuridade e nas humilhações e afinal morreu crucificado entre dois ladrões, pelo que dizia o Apóstolo que Jesus foi para os judeus escândalo e para os gentios loucura (1).

— Pequena também e desprezível em sua doutrina; porque quanto à fé impõe para crer dogmas superiores e, na aparência, contrários à razão humana; quanto às obras, ensina máximas bastante difíceis e humilhantes: manda-nos sofrer as injúrias, perdoar aos inimigos, renunciar a nós mesmos.

— Pequena finalmente e desprezível nos meios para se propagar; pois que para a sua dilatação foram escolhidos doze pobres pescadores, homens sem prestígio e sem instrução: Quae stulta sunt huius mundi elegit Deus (2) — “Deus escolheu o que é insensato segundo o mundo”.

Mas assim como o grão de mostarda, “quando tem crescido, é a maior de todas as hortaliças e se faz árvore, de maneira que vêm as aves do céu e se aninham em seus ramos”, assim também a Igreja de Jesus Cristo, pequena e desprezível na sua origem, com o auxílio de Deus cresceu em breve tempo de tal maneira, que uma multidão de pessoas, e entre estas reis, imperadores e sábios, a ela vieram abrigar-se, achando a verdadeira felicidade.

— Meu irmão, dá graças ao Senhor por teres nascido no grêmio desta Igreja; cuida, porém, que não sejas um membro morto ficando no estado de pecado, ou moribundo, vivendo em tibieza voluntária.

II. O grão de mostarda, como observa Santo Agostinho, tem virtude medicinal, pois que expele do corpo os humores nocivos e fortalece os estômagos fracos. Nesta propriedade os santos intérpretes veem uma figura, não só da Igreja em geral, mas também das verdades evangélicas, e especialmente daquelas máximas que apagam o ardor da concupiscência e nos confirmam no exercício do bem começado. Mas para experimentarmos efeito tão salutar, não nos devemos contentar com o conhecimento e a crença nestas santas máximas. À imitação do homem da parábola, devemos além disso semeá-las no campo do nosso coração, isto é, considerá-las muitas vezes antes de nossas ações, e por assim dizer, mastigá-las por uma meditação refletida; pois que também neste particular são semelhantes ao grão de mostarda, o qual, na palavra de Santo Ambrósio, é tanto mais cheiroso, quanto mais se esfrega: Quanto plus teritur, tanto plus redolet.

Ó meu Deus, que graças Vos poderei dar por me haverdes chamado com tanto amor a fazer parte da vossa família? Como podia merecer tão grande graça apesar da previsão de tantas injúrias que Vos havia de fazer?! E eu tenho a ventura de estar no seio da vossa Igreja (de ser admitido a viver na vossa casa), na companhia de tantos servos vossos, com os mais abundantes meios para a minha santificação.

Meu Senhor, espero agradecer-Vos melhor no céu, e ali cantar eternamente as vossas misericórdias para comigo. Entretanto sou vosso, e vosso quero ser sempre; já me dei todo a Vós, agora renovo a minha consagração. Quero ser-Vos fiel; não Vos quero mais ofender, custe o que custar; quero, numa palavra, ser católico (eclesiástico, religioso), não só pelo nome, mas pelo fato. — Vós, porém, ó Deus todo-poderoso, ajudai-me com a vossa graça. “Fazei que esteja sempre ocupado em meditar as vossas santas máximas, e que as minhas palavras e obras sejam sempre conformes ao vosso divino beneplácito.” (3)

† Doce coração de Maria, sede minha salvação.

Referências:

(1) 1 Cor 1, 23
(2) 1 Cor 1, 27
(3) Or. Dom. curr.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 292-300)