Qual o peso da nossa cruz?

A misericórdia do Deus-Trino não exige méritos e nem duríssimas provas, pois é libertadora. Porém, exige uma abertura integral de coração — ardente pelo amor revelado por Jesus Cristo. Será que estamos abertos à Plenitude da Misericórdia, ou ficamos lamentando o peso da nossa cruz?

Nas perícopes dos Evangelhos de Mateus 16,24; Marcos 8,34 e Lucas 9,23, Jesus professa: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me”. O sentido físico da cruz é lastimoso; cheio de maldades, puro sofrimento. Não para nela padecer, mas como forma de tormento, amargura e provação, será que este é seu desejo para nós ao pedir que O sigamos carregando uma cruz, talvez tão “pesada” quanto à sua? Certamente, não! Mas então qual é o valioso significado espiritual [Mistagogia] que Jesus deseja que compreendamos com a mensagem dessa parábola?

O lídimo conceito da mensagem de Jesus de Nazaré é para que o crente renuncie a todo e qualquer tipo de maldade que possa passar em sua mente, evitando que não se transforme em ação, tornando-se um peso na consciência. A “proposta” é — liberto (a) [aberto unicamente para a Graça] e com a mesma doutrina de Jesus — manso e humilde desfrute da Redenção do Reino terreno do Pai, carregando sempre no coração a “leveza” da dádiva da sua Paz, junto com o expressivo “Peso do Amor” que foi até à cruz.

O homem misericordioso faz bem a si mesmo, o homem cruel destrói sua própria carne (Pv 11, 17).

Jesus, O Cristo, nos chama para “segui-LO sempre”, prometendo que, nos momentos de tribulações, com sua Doutrina; sua mansidão e humildade de coração alivia o fardo do fiel, pois seu jugo é suave e seu peso [Cruz] é leve (Mt 11,28-30).

Mesmo com as palavras do próprio Jesus em Mateus 11,28-30, há controvérsias teológicas quanto ao entendimento da mensagem. Os mais fundamentalistas, mesmo afirmando que a Via Crucis foi toda para o bem da humanidade [salvação],ensinam equivocadamente a questão do sofrimento, ou seja: quando não é pela “desgraça do inimigo”; é porque se Jesus sofreu, também podemos ou devemos sofrer, relacionando isto com mágoas, doenças físicas e mentais, maldades generalizadas, desavenças, intrigas, aflições, dificuldades familiares e financeiras, etc.

Alguns pregam a ideia de inúmeros “embaraços” para todos. É como se estivéssemos predestinados a viver mediante amarguras e provações, sendo que para a Santíssima Trindade não há provações. Não há dialética, há sim, uma asseveração que não demanda nenhum tipo de sofrimento, a única exigência é o AMOR — substância de Deus (1Jo 4,7-8).

Em Verdade temos biblistas e teólogos que reconhecem desde o Primeiro Testamento as maiores dádivas do Reino de Deus reveladas no “chão da vida”, sobretudo a Dolorosa Paixão, e as interpretam como sublimes confirmações do amor incondicional e misericordioso de Deus, eliminando todas as possiblidades de tribulações naturais que o fiel, “em queda”, deva passar como consequência por ser criatura do Senhor.

Quanto mais nos sentimos miseráveis, tanto mais devemos confiar na misericórdia de Deus. Porque, entre a misericórdia e a miséria, há uma ligação tão grande que uma não pode se exercer sem a outra (São Francisco de Sales).

Não que o cristão esteja livre de todo e qualquer tipo de sofrimento, mas é preciso reconhecê-los no madeiro como fonte de “libertação” para um encontro interior — uma comunhão permanente com a Trindade Santa, repleta de Amor e de paz, suficientes para produzir mansidão e equilíbrio emocional para superá-los com sobriedade. A cura interior nos momentos de fragilidade é muito rápida quando o (a) fiel carrega o amor da Santíssima Trindade dentro de si. 

Frente à visível realidade presente em toda a história da humanidade, nos mostrando inúmeras maldades, angústias e tristezas presentes entre todos os povos, até mesmo para os que vivem fervorosamente na fé do Deus-Trino, não é nada fácil declarar e até mesmo tentar explicar a razão dos sofrimentos humanos quando se confia piamente em sua compaixão. Apesar de este contexto fazer sentido, vida terrena sem sofrimento não é sua Promessa. Porém, o amparo e o conforto que o cristão recebe gratuitamente são construídos por uma ascensão espiritual [Dom do Céu dentro do ser], que transcende toda e qualquer forma de entendimento comum, visto estar relacionada com a alma espiritual e o coração, e de sua abertura para permitir Graça suficiente (2Cor 12,9).

Em exaltação, para o cristão fidedigno à Boa-Nova que verdadeiramente reconhece, permite e convive intensamente seu dia a dia sob a Graça do Plano de Amor de Deus em sua vida, o jugo suave não é somente para ser enaltecido nos dias de paz, mas principalmente nos de maiores dificuldades, não permitindo que sua alma e a do próximo sejam contaminadas com tristezas. Joelhos dobrados é condição fundamental de vida para não se “esfolar”, sem antes glorificar todo o peso do Amor colocado na cruz.

O Deus revelado na cruz de Jesus é um Deus solidário com o sofrimento de cada ser humano, um Deus que assume o sofrimento e a morte de Jesus e, inseparavelmente, o sofrimento e a morte de todos os seres humanos. É um Deus que não está fora ou à margem do sofrimento e do mal existentes na história humana, um Deus que vence o mal, não mediante discursos dirigidos aos que sofrem, mas assumindo-o a partir do próprio interior da negatividade da história (RUBIO, 1994, p.92).

No madeiro nosso Deus-Trino superabundou a Graça — e com o resplandecer da luz do Seu Espírito Santo, mostrou o Único Caminho seguro para o fiel seguir carregando sua cruz. Não como um leve e mero ícone sacramental, mas sim, com todo o peso da Cruz Libertadora, que surpreendentemente se torna leve e prazerosa de carregá-la a partir do momento que o cristão vive O Amor com todas as suas forças, extraídas profundamente do interior de seu coração/alma, e O rejubila em sua vida [Consciência] e na vida do próximo.

Cristo Jesus entra pela Graça, faz a obra por completo e transfigura o olhar do crente, fazendo-o enxergar toda a beleza do Reino Terreno. Mas para isto é fundamental estar repleto de sinais condizentes com o Plano de Amor de Deus, e não cheio de tristezas e de rancores provocados pelo medo das tribulações, medo de ser feliz, medo de errar, e principalmente pelo medo do que poderá vir depois […].

As minhas ovelhas escutam a minha voz, eu as conheço e elas me seguem; eu lhes dou a vida eterna e elas jamais perecerão, e ninguém as arrebatará de minha mão. Meu Pai, que me deu tudo, é maior que todos e ninguém pode arrebatar da mão do Pai. Eu e o Pai somos um (Jo 10, 27-30).

Comentar que vivemos num mundo de crucificados pode representar uma condição bem inconsistente e pesada para os que creem na bondade de Deus. A cruz não foi salvadora, mas toda a vida de Jesus de Nazaré e sua ida até ela traz até nós elementos essenciais da Criação; do Criador e do por Ele Gerado. Então, “todo ‘ser humano/criatura’, crente ou não, simbolicamente, carrega sua cruz”. Porém, o jeito e a forma de “aliviar o peso” são peculiaridades bem pessoais e dependem somente do tipo de força empregada no amor, para nós cristãos, fundamentalmente em Cristo.

Para todo aquele que se diz cristão (ã), conforme Lucas 9,20, Jesus faz a mesma pergunta: “E vós quem dizeis que eu sou?” Assim como para Pedro, mesmo convivendo com Jesus não foi nada fácil e até bem demorado para discernir, porém, mantendo-se firme na sua presença e na sua escuta, quando confiante e maduro, só há uma profissão de fé: O Cristo de Deus (Mt 16,16; Mc 8,29; Lc 9,20). Com louvores, isto responde também a promessa do jugo suave e do peso leve da cruz da vida.

Carregar a cruz pessoal (Lc 14,27), “o leve no sentido de peso” só tem valor quando convertido em amparo e conforto. Ação sobrenatural da Santíssima Trindade sobre o cristão (ã). Não há nenhum ser humano capaz de explicá-la por completo, dado que, diante do mistério — é pura Graça Divina enviada do Céu.

Na história a cruz tem um significado de sofrimento, de tortura e execução. Por analogia representa tudo que se encontra [cruza], entretanto, para o Cristianismo consiste em Misericórdia — no Amor do Pai revelado em Cristo Jesus. É o encontro Sagrado do cristão com O Pai, com O Filho e com O Espírito Santo(Cl 2,90). “Feliz o homem que encontrou a sabedoria, o homem que alcançou o entendimento!” (Pr 3,13).

A mensagem de Jesus para que O sigamos com a nossa cruz não deve ser comparada com o carregar uma cruz ou um crucifixo, muito menos sustentar somente a ideia de mais um entre tantos conceitos em nossas vidas. Mais do que a beleza do sacramental no pescoço ou um conceito, assim como os Gálatas que caíram na ilusão de um Cristo sem cruz ou de uma cruz sem Cristo, O Jesus da cruz nos “pede amor” pela via da fé objetiva, e nos “dá forças suficientes” para carregá-LO em estado de adoração dentro do coração. “O amor de Cristo revelado na cruz é como um GPS espiritual” (Papa Francisco).

O Papa assinalou que a cruz é um “mistério de amor e somente com a contemplação se vai avante neste mistério de amor”. Enunciou ainda: “Jesus desceu do Céu para levar todos nós a subir ao Céu, este é o mistério da cruz” (Homilia – Celebração na Capela da casa de Santa Marta em 14/07/2017).

Por Cristo, com Cristo, e em Cristo.

Orlando Polidoro Junior

Teólogo pela PUCPR

REFERÊNCIAS

BÍBLIA DE JERUSALÉM. São Paulo: Paulus, 2002.

RUBIO, Afonso Garcia. O encontro com Jesus Cristo vivo. São Paulo: Paulinas, 1994.