II Domingo depois da Epifania -17/01/2020

Os Domingos depois da Epifania

Estes domingos explicam e aprofundam o pensamento da festa da Epifania. Cristo, o Rei, se manifesta ao mundo como seu Messias e Salvador. Mais e mais chegamos a conhecer a grandeza e a Majestade divinas, Aquele que, havia pouco ainda, víamos criança pequenina, pobre e fraca, na tapinha de Belém.

Manifestando-se a glória de Jesus, cresce também a Igreja, espalha-se entre as nações e amadurece para a segunda vinda do Senhor, porquanto no Sacrifício eucarístico recebemos as graças de sua primeira vinda.

Os domingos que forem impedidos pelo Domingo da Setuagésima, serão intercalados entre o XXIII e o XXIV domingo depois de Pentecostes.

O II Domingo depois da Epifania

Jesus Cristo é o Rei da criação, e por isso, toda a terra O deve adorar e louvar como a seu Redentor (Intróito, Gradual). Por seu nascimento tornou-se nosso Irmão e por sua morte recebeu-nos em herança. Pela Eucaristia continua a comunicar-nos os frutos de seu nascimento, de sua vida e de sua morte. Vemo-Lo hoje, nas bodas de Caná (Evangelho), realizando seu primeiro milagre: a conversão da água em vinho. Aqui converte o vinho em seu Preciosíssimo Sangue, a fim de, por meio deste milagre, repetido através dos séculos, comunicar aos homens a sua divindade. É justo, pois, que digamos no Ofertório: “Vede quanto bem Deus fez à minha alma”.

EPÍSTOLA (Rm 12,6-16)

IRMÃOS: Tendo nós diferentes dons, segundo a graça que nos foi dada, bem usemos deles: se o dom de profecia, usai-o segundo a regra da fé: quem foi chamado ao ministério, administre bem; quem recebeu o dom de ensinar, ensine bem; quem exorta, exorte bem; quem dá esmola, dê com simplicidade. Quem preside, seja solícito; quem usa de misericórdia, faça-o com alegria. Seja o nosso amor, sem fingimento. Odiai o mal, e segui o bem. Amai-vos mutuamente, com amor fraternal, honrando-vos uns aos outros. Não sejais preguiçosos no que está a vosso cuidado. Sede fervorosos de espírito, servindo ao Senhor, e alegrando-vos com a esperança. Sede pacientes na tribulação e perseverantes na oração. Socorrei, como se fossem vossas, as necessidades dos santos, e praticai a hospitalidade. Abençoai os que vos perseguem: abençoai, e não amaldiçoeis! Alegrai-vos com os que se alegram, e chorai com os que choram. Tende entre vós os mesmos sentimentos, não aspirando a grandezas, mas acomodando-vos ao que é humilde.

EVANGELHO (Jo 2,1-11)

NAQUELE tempo, celebraram-se umas bodas em Caná de Galileia, e achava-se ali a Mãe de Jesus. E também Jesus foi convidado, com seus discípulos, para as bodas. Faltando o vinho, a Mãe de Jesus disse-Lhe: Não têm mais vinho. Respondeu-lhe Jesus: Mulher, que nos importa isso, a Mim e a ti? Ainda não chegou a minha hora. Disse sua Mãe aos servidores: Fazei tudo quanto Ele vos disser. Ora, havia ali seis talhas de pedra destinadas às purificações usadas entre os judeus, cada uma das quais comportando duas ou três medidas [cerca de 40 litros]. Disse-lhes Jesus: Enchei de água estas talhas. E encheram-nas até às bordas. E Jesus disse-lhes: Tirai agora e levai ao mestre-sala. E levaram. Assim que o mestre-sala provou a água transformada em vinho, sem saber de onde era, embora o soubessem os serventes que haviam tirado a água, chamou o mestre-sala ao esposo, e disse-lhe: Todo homem põe primeiro o bom vinho, e quando já se tem bebido, põe então o inferior; mas tu guardaste o bom vinho até agora. Este foi o primeiro dos milagres que Jesus fez em Caná de Galileia; e manifestou sua glória, e seus discípulos creram n’Ele.

Sumário

Podia Jesus salvar-nos sem sofrer. Mas não; por nosso amor quis abraçar uma vida de dores e de desprezos, sem qualquer consolação terrena. Mais, durante toda a sua vida suspirava continuamente pela hora de sua morte, a fim de ser batizado com o seu próprio sangue e limpar-nos das imundícies dos nossos pecados. Em vista de tudo isso, como poderemos deixar de amá-Lo de todo o nosso coração, e recusar-nos a sofrer alguma coisa por seu amor?

I. Podia Jesus salvar-nos sem sofrer; mas não, quis abraçar uma vida de dores e de desprezos, sem qualquer consolação terrestre, e uma morte toda amargosa e desolada, unicamente para nos fazer compreender o amor que nos tinha e o seu desejo de ser amado por nós. Durante toda a sua vida Jesus suspirava pela hora da morte, que Ele desejava oferecer a Deus a fim de obter para nós a salvação eterna. É este o desejo que o fazia dizer: Baptismo habeo baptizari, et quomodo coarctor, usquedum perficiatur — “Tenho de ser batizado com um batismo; e quão grande não é a minha ansiedade até que ele se cumpra!” Jesus desejava ser batizado com o seu próprio sangue, para expiar, não os pecados próprios, senão os nossos. Ó amor infinito! Infeliz de quem não Vos conhece e não Vos ama.

Foi esse mesmo desejo que na véspera de sua morte Lhe inspirou estas palavras: Desiderio desideravi hoc Pascha manducare vobiscum (1) — “Tenho desejado ansiosamente comer esta Páscoa convosco”. Falando assim, demonstrou que em toda a sua vida não tivera outro desejo, a não ser o de ver chegado o tempo de sua paixão e morte, a fim de patentear ao homem o amor imenso que lhe tinha. — É pois, verdade, ó meu Jesus, almejais o nosso amor com tamanha veemência, que para o ganhardes não recusastes a morte! Como poderei negar alguma coisa a um Deus que por meu amor deu o seu sangue e a sua vida?

II. Diz São Boaventura que causa pasmo ver um Deus padecer por amor dos homens; mas que mais pasmo causa ver homens que contemplam um Deus que sofre por amor deles, que se fez criança e está tiritando de frio numa gruta, que vive como pobre oficial numa humilde loja e afinal morre, como um réu, sobre a cruz, e todavia não ardem de amor para com um Deus tão amante, ou mesmo chegam a desprezar o amor divino por amor dos vis prazeres da terra: como é possível que um Deus ame tanto os homens, e que estes, tão gratos aliás para com seus semelhantes, sejam tão ingratos para com Deus?

Ah! Jesus meu, eu também tenho sido do número destes ingratos. Dizei-me: como pudestes aceitar tantos sofrimentos por meu amor, apesar da previsão das injúrias que Vos havia de fazer? Mas já que me tendes suportado e me quereis ver salvo, dai-me uma grande dor dos meus pecados, uma dor proporcionada à minha ingratidão. Abomino e detesto sinceramente todos os desgostos que Vos tenho causado. Se em tempos passados desprezei a vossa graça, agora estimo-a acima de todos os reinos da terra. Amo-Vos de toda a minha alma, ó Deus de infinito amor, e desejo viver unicamente para Vos amar. Abrasai-me mais, e dai-me mais amor. Lembrai-me sempre o amor que me tendes dedicado, a fim de que o meu coração esteja sempre abrasado em vosso amor, assim como o vosso ardia no meu amor.

— Ó Coração amante de Maria, acendei em meu pobre coração o fogo do santo amor.

Referências:

(1) 📖 – Luc XXII. 15

📗 – (LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 154-156)