Domingo da Quinquagésima

II classe, paramentos roxos

Estação em São Pedro

Em espírito, nós nos reunimos com toda a santa Igreja junto ao sepulcro do Príncipe dos Apóstolos, S. Pedro. Como ele, devemo-nos curar da cegueira espiritual e nos convencer de que os sofrimentos do Cristo e também os nossos são necessários para conseguirmos a verdadeira vida. Este domingo é uma preparação próxima para a Quaresma. Por amor da humanidade cega, toma o Salvador, sobre Si, os sofrimentos dela (Evangelho). Por amor de Deus – a Epistola nos ensina qual o verdadeiro – devemos expiar as nossas faltas, fazendo da santa Missa o nosso Calvário e unindo os nossos sofrimentos aos do Filho de Deus. E se na Oração pedimos que o Senhor nos livre de toda adversidade, queremos apenas a isenção dos males que prejudicam a nossa salvação, sabendo que, aos que amam a Deus, todas as coisas cooperam para o seu bem (Rom. 8, 28).

(Dom Beda)

Epístola

Lição da Ep.ª do B. Ap.º Paulo aos Coríntios
1 Cor. 13,1-13
Meus irmãos: Se eu falar as línguas dos homens e dos Anjos, mas não tiver caridade, sou como o metal, que tine, ou como o sino, que soa. E se eu tiver o dom de profecia, conhecer todos os mystérios e possuir toda a ciência; e se tiver toda a fé, até ser capaz de transportar montanhas, mas não tiver caridade, nada sou. E se eu distribuir todos meus bens, para sustento dos pobres, e se entregar o meu corpo, para ser queimado, mas não tiver caridade, de nada me aproveitará. A caridade é paciente e benigna; não é invejosa, não é leviana, não é soberba, não é ambiciosa, não procura o próprio interesse, não se irrita, não julga mal, não se alegra com a injustiça; antes regozija-se com a verdade, sofre tudo, acredita em tudo, tudo espera, tudo suporta. A caridade nunca perecerá, ainda que não houvesse mais profecias, ainda que as línguas acabassem, ainda que a ciência desaparecesse; pois estes dons da ciência e da profecia são incompletos. Ora, quando vier o que é perfeito, acabará o que é imperfeito. Quando eu era menino, falava como menino, pensava como menino e discorria como menino; mas, quando me tornei homem, desapareceu o que tinha de menino. Agora vemos em enigmas, como em um espelho; mais tarde veremos face a face. Agora conheço as coisas imperfeitamente; mais tarde conhecê-las-ei, como sou conhecido. Agora permanecem estas três coisas: a fé, a esperança e a caridade; mas a maior das três é a caridade.

Evangelho

Continuação ☩ do santo Evangelho segundo S. Lucas
Lc 18, 31-43
Naquele tempo, levou Jesus consigo os Doze e disse-lhes: «Eis que subimos para Jerusalém, onde se vai cumprir o que os Profetas escreveram a respeito do Filho do homem, pois será entregue aos gentios, será escarnecido, injuriado e cuspido; e, depois de O haverem flagelado, será morto; mas ressuscitará ao terceiro dia». Porém eles não compreenderam estas palavras (pois o sentido delas era-lhes oculto) e não entendiam a sua significação. Chegou, então, Jesus perto de Jericó, onde estava um cego à beira do caminho a pedir esmola. Ouvindo este o rumor das turbas, perguntou o que era aquilo. E disseram-lhe: «É Jesus de Nazaré que passa». Logo, ele começou a gritar: «Jesus, filho de David, tende piedade de mim!». Aqueles que iam adiante repreenderam-no rudemente, dizendo-lhe que se calasse. Mas ele gritava ainda com mais força: «Jesus, filho de David, tende piedade de mim!». Então Jesus, parando, mandou que Lhe levassem o cego. Quando este já estava ao pé, interrogou-o Jesus: «Que queres que faça?». Ele respondeu: «Senhor, fazei que eu veja!». Jesus disse-lhe: «Pois vê! A tua fé salvou-te!». Logo, começou a ver. E, acompanhando Jesus, glorificava Deus. E todo o povo que presenciou isto louvou a Deus.

REFLEXÃO

Consummabuntur omnia, quae scripta sunt per prophetas de filio hominis – “Será cumprido tudo o que está escrito pelos profetas, tocante ao Filho do homem” (Lc 18, 31)

Sumário. Não é sem uma razão mística que a Igreja propõe hoje à nossa meditação Jesus Cristo predizendo a sua dolorosa Paixão. A nossa boa Mãe deseja que nós, seus filhos, nos unamos a ela, para compadecermos do seu divino Esposo, e o consolarmos com os nossos obséquios, ao passo que os pecadores, nestes dias mais do que em outros tempos, lhe renovam todos os ultrajes descritos no Evangelho. Quer ela também que roguemos pela conversão de tantos infelizes, nossos irmãos. Não temos por ventura bastantes motivos para isso?

I. Não é sem razão mística que a Igreja propõe hoje à nossa meditação Jesus Cristo predizendo a sua dolorosa Paixão. Deseja a nossa boa Mãe que nós, seus filhos, nos unamos a ela na compaixão de seu divino Esposo, e o consolemos com os nossos obséquios; porquanto os pecadores, nestes dias mais do que em outros tempos, lhe renovam os ultrajes descritos no Evangelho.

Tradetur gentibus — “Ele vai ser entregue aos gentios”. Nestes tristes dias os cristãos, e quiçá entre eles alguns dos mais favorecidos, trairão, como Judas, o seu divino Mestre e o entregarão nas mãos do demônio. Eles o trairão, já não às ocultas, senão nas praças e vias públicas, fazendo ostentação de sua traição! Eles o trairão, não por trinta dinheiros, mas por coisas mais vis ainda: pela satisfação de uma paixão, por um torpe prazer, por um divertimento momentâneo!

Illudetur, flagellabitur et conspuetur — “Ele será mortejado, flagelado e coberto de escarros”. Uma das baixezas mais infames que Jesus Cristo sofreu em sua Paixão, foi que os soldados lhe vendaram os olhos e, como se ele nada visse, o cobriram de escarros, e lhe deram bofetadas, dizendo: Profetiza agora, Cristo, quem te bateu? Ah, meu Senhor! Quantas vezes esses mesmos ignominiosos tormentos não Vos são de novo infligidos nestes dias de extravagância diabólica? Pessoas que se cobrem o rosto com uma máscara, como se Deus assim não pudesse reconhecê-las, não têm pejo de vomitar em qualquer parte palavras obscenas, cantigas licenciosas, até blasfêmias execráveis contra Santo Nome de Deus! — Et postquam flagellaverint, occident eum — “Depois de o terem açoitado, o farão morrer”. Sim, pois se, segundo a palavra do Apóstolo, cada pecado é uma renovação da crucifixão do Filho de Deus, ah! Nestes dias Jesus será crucificado centenas e milhares de vezes.

É exatamente isto que Jesus Cristo quis dizer a Santa Gertrudes aparecendo-lhe num domingo de Quinquagésima, todo coberto de sangue, com as carnes rasgadas, na atitude do Ecce Homo, e com dois algozes ao lado, os quais lhe apertavam a coroa de espinhos e o batiam sem piedade. Ah! Meu pobre Senhor!

II. Refere o Evangelho em seguida, que, aproximando-se Jesus de Jericó, um cego estava sentado à beira da estrada e pedia esmolas. Ouvindo passar a multidão, perguntou o que era. Sabendo que passava Jesus de Nazaré, apesar de a gente o ralhar, a fim de que se calasse, não cessava de gritar: Jesus, Filho de Davi, tende piedade de mim (1). Por isso mereceu que, em recompensa de sua fé, o Senhor lhe restituísse a vista: Fides tua te salvum fecit — “A tua fé te valeu”.

Se quisermos agradar ao Senhor, eis aí o que também nós devemos fazer. Imitemos a fé daquele pobre cego, e neste tempo de desenfreada licença, enquanto os outros só pensam em se divertir com prazeres mundanos, procuremos estar, mais que de ordinário, diante do Santíssimo Sacramento. Não nos importemos com os escárnios do mundo, lembrando-nos do que diz São Pedro Crisólogo. Qui iocari voluerit cum diabolo, non poterit gaudere cum Christo — “Quem quiser brincar com o demônio, não poderá gozar com Cristo”. Quando nos acharmos em presença de Jesus no tabernáculo, peçamos-lhe luz para detestarmos as ofensas que o magoam tão profundamente. Peçamos-lhe não somente para nós mesmos, senão também para tantos irmãos nossos desviados: Domine, ut videam — “Senhor, fazei-me ver”.

Amabilíssimo Jesus, Vós que sobre a cruz perdoastes aos que Vos crucificaram, e desculpastes o seu horrendo pecado perante o vosso pai, tende piedade de tantos infelizes que, seduzidos pelo Espírito da mentira, e com o riso nos lábios, vão neste tempo de falso prazer e de dissipação escandalosa, correndo para a sua perdição. Ah! Pelos merecimentos de vosso divino sangue, não os abandoneis, assim como mereceriam, Reservai-lhes um dia de misericórdia, em que cheguem a reconhecer o mal que fazem e a converter-se. — Protegei-me sempre com a vossa poderosa mão, a fim de que não me deixe seduzir no meio de tantos escândalos e não venha a ofender-Vos novamente. Fazei que eu me aplique tanto mais aos exercícios de devoção, quanto estes são mais esquecidos pelos iludidos filhos do mundo. “Atendei, Senhor, benigno às minhas preces, e soltando-me das cadeias do pecado, preservai-me de toda a adversidade.”(2) † Doce Coração de Maria, sêde minha salvação.

Referências:

(1) Lc 18, 38
(2) Or. Dom. curr.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo I: Desde o Primeiro Domingo do Advento até a Semana Santa Inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 279-282)